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PORTA SANTA DA MISERICÓRDIA – por ela todos os homens passarão

O que significa, precisamente, misericórdia? E qual a simbólica que uma “porta santa” evoca? Que pastor? Que porteiro e que voz?

 

“Aquele que abre o caminho
irá adiante deles;
passarão pela porta e sairão.
O rei deles, o Senhor, os guiará.”

Miquéias 2, 13

 

No início do 29º Ano Santo da Igreja Católica, quis o papa Francisco proclamar um ano santo extraordinário sob a “arquitrave da misericórdia”, alicerce sobre a qual está fundamentada toda a Igreja e, com ela, todos os fiéis.

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A misericórdia é, em outras palavras, a face revelada de Deus. Aquela da qual podemos dizer alguma coisa. O mais é mistério. Um Deus que é absconditus, tremendum et fascinans. Sua identidade mais precisa, porém, nos foi revelada nos sulcos faciais de um da Trindade que se encarnou: Jesus, o Filho, a “misericordiae vultus”, o rosto misericordioso do Pai.

Em Jesus, o ser humano pode, enfim, colocar-se face-a-face com Deus sem que com isso venha a perder a vida. Com ele, houve troca de olhares cúmplices e encontro de mãos e de vidas que se entrecruzaram. Ele se aproximou especialmente daqueles que eram tidos impuros e incapazes de evidenciar o socorro de Deus; os pecadores: as prostitutas, os publicanos, os leprosos, os pobres, os doentes, as mulheres, as crianças.

Numa sociedade profundamente marcada pela indiferença, pela cultura do medo e do terror, do ódio e da segregação, aquele homem, Jesus, despontou como aurora de um tempo novo, em que o sol, de fato, brilhou para todos. Muitos que antes não puderam ver o brilho e o calor do sol justo e sem ocaso, porque se encontraram com Jesus, tiveram suas vistas abertas ao mundo, às pessoas, a si mesmas e a Deus.

Do encontro com aquele “alguém”, ninguém saía indiferente. Uns o amavam e o seguiam onde quer que fosse; outros, o detestavam e queriam a sua morte. Ele era, portanto, um divisor de águas.

A relação de Jesus com Deus, a quem ele chamava de Pai, destoava por completo da relação que os religiosos de seu tempo testemunhavam. Se para esses, Deus era um ser distante, minimalista, sujeito aos ritos estéreis da religião e tutorado pelas suas próprias leis, em Jesus esse mesmo Deus era apresentado como alguém com sentimentos mais parecidos com os dos homens do que com os de um deus, propriamente dito: impassível, incorruptível, inacessível, imutável, onipresente e todo-poderoso.

Em Jesus, Deus se mostra frágil, afetável e com “entranhas”, tais como a de uma mulher em dores de parto. E essas entranhas eram entranhas de misericórdia. Ele se comovia com os dissabores dos homens e se punha atento às suas necessidades. Fossem elas quais fossem: “até mesmo os fios de cabelo de vossas cabeças estão todos contados” (Lc 12, 7); sua providência era atenta aos mínimos detalhes: “não vos preocupeis com o que haveis de comer, nem beber, nem vestir, pois o vosso Pai que está nos céus sabe que necessitais de tudo isso” (Mt 6, 25ss).

A expressão mais genuína de Deus encontra-se numa parábola, das muitas que Jesus contou. Uma parábola era uma estória com uma moral explícita, sobre valores e princípios que qualquer ouvinte mais atento era capaz de identificar.

Das muitas contadas sobre o Reino dos Céus e sobre quem era Deus, uma delas nos salta aos olhos: a parábola do Pai Misericordioso (cf. Lc 15, 11-32).

Nela, vemos um homem que espreita todos os dias a estrada que dá acesso à sua casa para ver se, por ela, o seu filho mais moço estaria regressando. Ele resolvera ir embora, curtir a vida e esbanjar os bens da herança que, precocemente, obrigou o Pai a repartir. O filho mais velho ficara na casa do Pai. Aquele outro, tomado pelos ventos juvenis, quis conhecer a liberdade distante da tutela do Pai. Experimentou, ao contrário, a dor, o infortúnio, a mentira dos que se diziam amigos e o amargor de se ver rejeitado e só.

Um dia, porém, por feliz iniciativa de sua consciência e de sua memória que lhe possibilitaram recobrar o brio e o bom-senso, aquele moço se deu conta da grandiloquente generosidade do Pai: “na casa de meu Pai até mesmo os empregados têm o que comer, e eu aqui a passar fome…” Ele estava entre os porcos e nem mesmo a comida deles lhe era permitido comer. Os porcos eram os animais mais impuros para os judeus. Ele fora posto abaixo desses animais. Ter renegado o Pai e a convivência na casa paterna o tornara infinitamente indigno de sua condição de “filho”. Ninguém o perdoaria por tamanho pecado. Afinal, ele “matara o pai” e o pecado do parricídio é “imperdoável”. Seria se não fosse o Pai o próprio Deus.

Se nenhum homem era capaz de alcançar aquele jovem e resgatá-lo de seu pecado mais atroz, Deus mesmo, tal como aquele Pai, era suficientemente capaz de lhe restituir toda a dignidade perdida. Seu irmão, mais velho, não compreendeu “tamanha justiça”. Questionou a generosidade do Pai, quando, ao regressar para casa, depois de um dia inteiro de trabalho, ouviu som alto e barulho de festa: “é teu irmão que voltou…”, disse-lhe uma criada. Saber que seu irmão, o pecador, havia voltado e que, por cima, fora recebido com festa pelo Pai, causou-lhe profundo desgosto: “todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa esse seu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o novilho gordo para ele!”.

E nisso está o perigo da religião: quando nossa relação com Deus não se baseia na gratuidade da experiência profunda do seu amor e da sua misericórdia e já não vemos o outro como irmão. Quando nos deixamos levar pela mesmice dos gestos e ritos sem vida, quando nos tornamos profissionais do sagrado e nos sentimos mais servos do que amigos; mais trabalhadores do que filhos, experimentamos a dificuldade de nos vermos todos irmãos e de nos alegrarmos, sinceramente, com a volta daquele que se perdeu.

A atitude do Pai, porém, tão diametralmente oposta à do filho mais velho, é tão divina e tão humana: “Estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou”.

A mensagem dessa parábola é tão atual. A Igreja é expressão desta casa, onde o Pai, à porta, espera pelo regresso definitivo de seus filhos. De todos eles. Afinal, não há pecado que nos obrigue a permanecer distante do abraço perdoador de Deus. Nenhum pecado é forte o bastante para cortar de vez esta relação querida e constituída pelo amor decidido de Deus pelo ser humano. Nenhum pecado poderá nos afastar de vez do colo acolhedor do Pai. Pois, ainda que pequemos o pior dos pecados, será sempre nas mãos misericordiosas do Pai que haveremos de cair. Afinal, o Pai se coloca todos os dias junto à porta aguardando o nosso retorno.

E que porta é esta na qual o Pai se posiciona para nos esperar?

Esta porta é, precisamente, o Filho, nosso irmão: Jesus Cristo. Graças à vida, a missão e o Sim desse Filho, é que nós, seres humanos, fomos adotados como Filhos pelo Pai: “Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. E, em seu amor, nos predestinou para sermos adotados como filhos, por intermédio de Jesus Cristo, segundo a benevolência da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos outorgou gratuitamente no Amado…” (Ef 1, 4-6).

Sem o gesto alargado da cruz, expressão da desmesura do amor do Cristo pelo ser humano, do qual “pendeu a nossa salvação”, não teria sido aberta para nós a porta da misericórdia infinita do amor perdoador de Deus: “Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9).

Portanto, a simbólica da abertura da Porta Santa em um Ano Jubilar expressa esta similaridade com a Porta que é Cristo. Ao cruzá-la, os fiéis adentram por aquela porta “estreita” da qual nos fala os Evangelhos: “Eu asseguro a vocês que aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. […] Eu sou a porta das ovelhas. Quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem” (Jo 10, 1-9).

A expressão “porta das ovelhas” é carregada de significados, de estética e de teologia.

Interessante notar que, ao mesmo tempo em que Jesus é a Porta, Ele fala de um porteiro. Não há dúvidas. O movimento de um da Trindade é pleno de significados e de movimento dos outros dois. Enquanto o Pai cria, o Filho salva e o Espírito Santifica. Se o Filho é a porta, que dá acesso à vida nova, à salvação junto de Deus, quem a abre ou fecha é o Porteiro, isto é, o Pai. E a voz a incutir nos ouvidos das ovelhas o chamamento do Pastor é o Seu Espírito que torna possível a adesão a esta voz.

Daí que, ao cruzarmos o limiar do Ano Santo, passando pela Porta da Misericórdia, nós adentramos o aprisco do qual Jesus Cristo é o sumo pastor. Ele deseja cuidar de cada ovelha. Curar aquela que está enferma, enfaixar suas dores, derramar unguento sobre suas feridas e carregar no colo as tresmalhadas. Ele é capaz de alcançar aquela à beira do abismo com o seu cajado de pastor amoroso e atento e, se preciso for, deixará todas as demais outras no abrigo para ir atrás de uma única que se perdeu (cf. Lc 15, 6-7).

Diante das intempéries do tempo e dos revezes da vida, o Cristo, porta da misericórdia do Pai, nos convida a ir ao seu encontro e suplicar a sua infinita misericórdia: “”Peçam, e será dado; busquem e encontrarão; batam, e a porta será aberta. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e àquele que bate, a porta será aberta” (Mt 7, 7-8).

E como em toda relação que se preza deve haver mutualidade, não somos os únicos a bater à porta. Ele também, o pastor das ovelhas, não fica passivo nem é indiferente às nossas necessidades, mas se põe ao encalço de cada homem e de cada mulher, em todos os tempos e lugares e indo ao encontro deles insiste, pois “eterna é a sua misericórdia” (Sl 116), pois deseja vê-los felizes e salvos: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap. 3, 20).

Ousaremos abrir-lhe a porta de nosso coração e de nossa vida à medida que cruzarmos resolutos pela “Porta Santa”, que Ele é?

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Por, Pe. Claudemar Silva

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