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Quando a "Irmã Morte" me chamar…

“No dia seguinte ninguém morreu”. Assim começa e termina o livro “intermitências da morte” do nobel de literatura português, José Saramago.

Na trama, a morte quis provar para as pessoas daquele país distante que, mais do que vilã, ela é amiga do ser humano, e, consequentemente, da vida. Dicotômico? Pode ser. Afinal, morte e vida se entrecruzam e é próprio de quem vive experimentar a cada passo a proximidade e companhia da morte. Ela nos espreita muito de perto. É bem provável que ela seja nossa amiga mais leal.

E se a morte não existisse mais, suportaríamos o peso de uma existência sem ocaso? O caos provocado pela ausência da “foice” que finda com os dias do ser humano provocou uma celeuma sem precedentes na história daquele país. Do governo à Igreja, passando pelos serviços funerários, todos haverão de experimentar o amargor de uma vida estendida indefinidamente.

Concluído o período pedagógico, a morte resolve voltar, para alívio geral. Algo inédito, porém, será incorporado ao processo: na iminência da morte, todos receberão uma carta com uma semana de antecedência. Uma carta, entretanto, retorna três vezes. A morte foi investigar. O desfecho é surpreendente.

Salvaguardando a distância literal que tão magistralmente nos introduz no tema e na perspicácia da reflexão, é preciso dizer:

Para além da angústia que o homem experimenta por saber que vai morrer – dos seres vivos é o único que sabe de sua finitude -, a morte põe sobre a mesa, na pauta do dia, a responsabilidade intransferível para com a vida: assim como não posso viver a vida de outra pessoa, não posso pedir que um outro me substitua na minha morte. Morrer pelo outro pode até ser altruísta, mas minha morte, quando ela chegar, será intransferível.

Na tentativa de se ausentar à reflexão, o homem muitas vezes busca no divertimento e na vida irrefletida se esquecer desta sua condição mortal. Vive-se de qualquer jeito e por qualquer coisa. E, talvez por isso, lhe falte aquele motivo eminentemente nobre: viver pela vida mesma. De modo que, quando a morte chegar, ela não furte os sonhos cultivados durante uma vida inteira, mas leve, tão somente, a plenitude de tudo quanto se viveu.

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A concepção da morte é, de longe, o tema mais abordado pelas culturas. Ora apresentada como a grande libertadora do ser humano, desobrigando a alma de permanecer escrava do corpo (Platão), ora sendo apresentada como consequência do pecado do homem e de todas as demais criaturas e seres vivos.  Hoje, a morte é apresentada em seu momento de maior banalização e bestialidade: mata-se por nada e morre-se a conta-gotas nos mais mortíferos vícios e estilos de apressar o próprio fim.

A morte, no entanto, “não é nada para nós. Pois, quando ela está, nós não estamos. Quando estamos, ela não está” (Epicuro). Então, como é possível saber que morreremos, com certeza? Saberemos por que vemos outros morrerem (S. Freud). É na contemplação da morte do outro que tenho provas cabais de que minha existência terá neste mundo um tempo igualmente delimitado. Quando? Não se sabe. Pode ser hoje, amanhã, daqui a pouco ou daqui a 100 anos. Mas ela virá, com certeza.

Dizer, todavia, “neste mundo”, traz no bojo da questão a fé no pós-mortem. E isso não é consensual. Há quem não espere nada mais do que o vivido nesta terra.

Para os chamados niilistas, a morte é o fim total do ser humano. Com ela, fecha-se não apenas os olhos, mas também as relações, o coração, as múltiplas possibilidades da pessoa. É o ponto final em tudo aquilo que ainda seria possível realizar. Ela se configura, desse modo, na extrema frustração do sujeito: sua derradeira expressão vital de participação no mundo. Morrer é ser derrotado. É a última e maior decepção da vida. Os assassinos convictos, quando tramam a morte de seus inimigos e a executam, dizem-lhes: “perdeu playboy…”. Morrer é perder.

Para as Sagradas Escrituras, deste o Antigo Testamento, no contexto do Israel Antigo, a morte não era um problema, pois a vida era o bem maior. Uma vez morto, a pessoa ia para o chamado “Xeol”, ou “reino dos mortos”. Algumas passagens bíblicas darão conta de que o homem, na morte, voltava à sua condição terrosa: “ao pó voltarás” (GN 2,7; Sl 90,3). As compreensões e teologias do pós-mortem irão se alterar gradativamente ao longo dos tempos, até culminar nas questões acerca da ressurreição: para onde vão os bons? Os maus? Há retribuição por uma vida vivida satisfatoriamente, ou a vida junto de Deus é graça, dom imerecido?

Nesse sentido, a fé judaica tem uma visão mais otimista da morte, sem aquele peso e tragicidade helênica que mais tarde conheceremos pela História (destino/fatalismo). Havia um realismo, sim, de que a morte se configurava como o resultado dos males, enquanto a vida a síntese dos bens. A vida, no entanto, de quem morreu continuava pulsante nos familiares, sobretudo nos filhos (eis porque era uma benção ter muitos filhos). A vida continuava neles, na descendência que se constituía. Daí, maldito aquele que não tivesse descendência.

No Novo Testamento, Jesus se apresenta como a “ressurreição e a vida”. Quem nEle crer, ainda que morto, reviverá (Jo 11, 25). É a expressão mais forte e contundente de que, no cristianismo, a fé na ressurreição não é opção livre, mas fundamento da própria esperança. Do contrário, conclui Paulo: “vã seria a nossa fé” (I Cor 15,14).

A morte, para quem crê, não é o fim, mas o transcurso natural da própria existência. “Morrer é um carro ao longo de uma curva: só se deixa de ser visto”, poetizou Fernando Pessoa. Ou, ainda, “morrer é encantar-se”.

A síntese da morte é o que ela deixa atrás de si: a assinatura de uma vida inteira. Válida ou não, na morte se conhece a verdade última do homem: “foi uma vida que valeu a pena”, dirão alguns. “Esse aí fez a diferença”, dirão outros. Ou, então, “foi uma vida miserável: egoísta, prepotente, só pensava em si. Não partilhou nem se solidarizou com ninguém”, afirmarão uns, secretamente.

Para o cristão, assim como no nascimento – fruto do desejo explícito de Deus-Trindade para que viéssemos ao mundo para sermos manifestação da sua glória e santidade -, na morte o homem morre e ressuscita auxiliado por Deus e em Deus, tal como o Filho, nosso irmão, Jesus Cristo: morre-se nos braços do Pai, auxiliados pelo Espírito Santo. Morrer é, portanto, um evento trinitário.

Embora a morte não diga do desejo último de Deus, através dela somos transformados naquilo para o qual fomos criados: para a comunhão plena e eterna com Ele. “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada” (Prefácio da Missa para os mortos, I).

caravaggio extase de s franciscoUm dia seremos todos acolhidos na casa do Pai, para onde foi aquele que nos precedeu em tudo, Jesus Cristo. Sua última missão foi a de nos preparar lá um lugar (cf. Jo 14,3).

Em Deus, há um lugar – e Deus mesmo é este lugar – onde está inscrito o meu nome. Ele me espera, ansiosamente. E um dia, saudoso de me reencontrar, pronunciará o meu nome de modo definitivo. Meus ouvidos se abrirão e serei capaz de ouvir aquela voz “forte e suave”. A ternura naquele timbre e a firmeza em sua voz não me deixarão dúvidas: o Amor me chama. E quando o Amor nos chama não há opção mais sensata e feliz a fazer senão a de segui-lo decididamente.

E eu, serenamente e com o coração transpassado pelo calor de sua voz, trilharei minha última jornada. Avançarei decidido pelo caminho que muitas vezes me viu passar, mas do qual sempre regressei. Desta vez, porém, será a última.

Contemplarei atento tudo quanto vi, e me despedirei agradecido: das pessoas e das coisas. Não poderei levar nada, a não ser as muitas marcas e experiências tecidas gradativamente em mim. Minha história: dores e alegrias, sucessos e fracassos; minha identidade mais pura e verdadeira, eu a lançarei nos braços daquele que, à porta, me receberá. E não saberei dizer quem explodirá primeiro em prantos de alegria: se Ele ou se eu. E assim, do mesmo modo como não se sabe morrer (Santa Teresinha), embora se morra, constatarei: a saudade e as lágrimas cessarão. A vida plena manifestar-se-á. V-I-V-E-R-E-I, enfim!

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Por, Pe. Claudemar Silva

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