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"Quem é este menino?"

Dia desses, uma amiga me contou que um sobrinho seu, filho de seu irmão que se diz ateu, ao visitá-la ficou encantado com aquele bebê disposto num curral, em meio a pessoas e animais: “que gracinha. Quem é esse menino?”, perguntou-lhe.

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O fato seria trivial se permanecesse apenas lá, onde se diz que Deus e sua presença foram banidos dos corações e dos pensamentos.  Embora o esforço seja o mesmo; dos cristãos por pensar sempre nEle, e deles, os ateus, por se esforçarem por afirmar a Sua ausência.

Mas o caso não é insólito. Infelizmente. É quase uma constante em nossas realidades eclesiais. Não preciso ir longe. Aliás, tanto mais tenho apreciado dizer das coisas que estão mais próximas e, por isso, perfeitamente compreensíveis.

Noutro dia, numa celebração com crianças, questionei-lhes: no advento celebramos as duas vindas de Jesus. A segunda, que não sabemos quando será, e a primeira. Alguém poderia dizer-me quando foi que se deu a primeira vinda de Jesus? Ninguém se atreveu a responder. Levei o microfone a cinco crianças. Nenhuma soube ou conseguiu responder-me satisfatoriamente. Um desastre catequético. Pais e catequistas coraram de vergonha. Confesso que naquele momento senti na boca e no estômago a força da palavra “escândalo”, entendida biblicamente. Não cai ao chão, acometido daquele tropeço inesperado, porque veio em meu socorro um garoto que disse: “no natal”. Salvou minha pregação. Mas eu voltei para casa entristecido e “escandalizado”.

Agora a pouco, a menos de duas semanas para o natal, presidi a primeira comunhão de nove crianças. Foi também a minha primeira experiência na administração desse sacramento.

Ao atendê-las em confissão, pedi que rezassem algumas orações que julguei serem de domínio público. Pedi-lhes que recitassem o “anjo da guarda”, o “ato de contrição”, a “salve rainha”, e fizessem “o sinal da cruz”. Não necessariamente nessa ordem nem todas as orações de uma vez a uma única criança. Fui alternando-as entre os catequizandos. O resultado: outro “escândalo”. Eles me olhavam assustados, como se lhes pedisse uma equação do segundo grau, algum problema envolvendo álgebra, ou um dado da história geral, como a guerra fria, por exemplo. Enfim, a arguição foi uma lástima.

Rezei com eles e por eles. Acolhi os catequistas e os agradeci pelo trabalho incansável de evangelizadores. Sei do esforço que muitos fazem para cumprirem com diligência a missão de catequisar tantos jovens e crianças.

Entretanto, o problema não está inicialmente nem fundamentalmente em nossas salas de catequese. A gravidade da situação é um reflexo do abandono e do descompromisso de nossas famílias para com a educação de nossos filhos.

E pensar que um dia, diante do altar do Senhor, os nubentes afirmaram categoricamente que estavam dispostos a assumir com amor os filhos que Deus lhes enviasse, educando-os na fé cristã. A realidade mostra o contrário. Nossos filhos estão abandonados à própria sorte. Não seria também este um caso de “conselho tutelar”? Exagero? No afã de darem o melhor para os filhos, os pais chegam cada vez mais tarde em casa. Cansados, querem tão somente se distrair. Ouvir, ensinar e educar são tarefas árduas demais. Delegam a outrem o que lhes pertence por direito e dever.

A educação básica cristã não é de responsabilidade da igreja, enquanto instituição, mas da primeira realidade eclesial que temos: a igreja doméstica, isto é, a família.

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É na família que se dá a solidificação daquilo que levaremos para uma vida inteira. As verdades de fé lançadas nos corações das crianças irão acompanhá-las pela vida adulta, até o fim. É inacreditável que os pais sejam omissos a esse ponto. Então já não rezam mais com os seus filhos? Não lhes ensinam o pai-nosso, a ave-maria e tantas outras orações e símbolos da nossa fé, que os manteria em estreita relação com a tradição cristã?

Se uma pessoa não manteve contato com o seu “anjo da guarda” enquanto criança, muito dificilmente em sua fase adulta saberá se dirigir com confiança pueril a esses amigos da nossa fé e da nossa esperança. Se alguém não foi instruído e motivado a olhar filialmente para Maria, acolhendo-a como mãe terna e capaz de nos colocar nos braços, será pouco provável que, adulto, ele consiga experimentar aquele conforto e aconchego maternais. Há etapas na vida cristã que precisam, como toda e qualquer etapa da vida, no processo de elaboração do sujeito e de sua individualização, ser vividos no tempo oportuno. Fora de contexto, o sujeito sente-se deslocado e desfamiliarizado com a proposta, ainda que racionalmente compreendida.

A lembrança que tenho do meu “anjo da guarda” é ainda aquela que minha mãe incutiu em mim quando criança. À noite, ela nos chamava – a mim e a meus irmãos – à sua cama e, lá, aninhados sob os seus pés, rezávamos as orações que ela havia aprendido com sua mãe. Ao final, ela traçava sobre nós o “pelo sinal da santa cruz…” e nos ajudava a fazer o mesmo sobre nós.

Cresci com este sentimento e esta devoção aprendidos em casa. Ao chegar à catequese, na paróquia, muito tempo depois, tais orações já eram hábito em minha vida. O que a catequese fez por mim foi estruturar as muitas coisas aprendidas com minha mãe, uma senhora semialfabetizada. Hoje, olhando-a nas entrelinhas de minha história, reconheço: minha mãe cumpriu com a sua missão. Foi fiel àquele “sim” um dia proferido no altar do Senhor.

Ao nos situarmos dentro do ciclo do Natal do Senhor poderíamos nos fazer tantas perguntas a esse respeito. Algumas, certamente, soariam um tanto angustiantes. Mas, antes delas, prefiro evocar o “grande escândalo” da fé: a humanização de Deus. O anúncio cristão da encarnação de Deus é ainda hoje, e talvez mais do que outrora, uma grande loucura. Uma aberração. Como é possível que um Deus tenha se tornado naquilo que Ele mesmo criou? E para quê?

Para entender este grande mistério da fé é preciso tempo. É necessário, sobretudo, de colo de mãe e de atenção de pai. É preciso que haja disponibilidade paternal/maternal para, em todas as noites, reunir os filhos e lhes contar, como faziam os nossos primeiros pais na fé, a respeito daquela noite memorável, – a “noite das noites” -, diante da pergunta do filho mais novo: “pai, por que esta noite é tão especial?”.

Oxalá os filhos de hoje tenham a coragem de interrogar os seus pais, e os pais, por sua vez, saibam acolher os seus filhos em suas perguntas existenciais. Pois, mais importante do que a resposta é esta proximidade familiar que nos recorda o essencial: “Belém é aqui”!

Ao som das batidas às nossas portas, eis nosso incômodo: haverá lugar adequado para este que chega às nossas casas, em nossas famílias?

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Por, Pe. Claudemar Silva

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