Reflexões Dominicais

Reflexão: 1º domingo do Advento

Reflexão Dominical – 1º Domingo Litúrgico do Advento 
“Em novenas estarei, esperando Jesus…” – Advento, Começo e Término
Por Pe. Joéds Castro

Advento – adventus, em latim – significa vinda, chegada. É uma palavra de origem profana que indicava a vinda anual da divindade pagã, ao templo, para visitar seus adoradores. Acreditava-se que o “deus”, cuja estátua era objeto de adoração ali, permaneceu no meio deles durante a solenidade. No idioma atual, também chamou a primeira visita oficial de um personagem importante, uma vez que ele assumiu uma posição alta.

Assim, algumas moedas de Corinto perpetuam a memória do adventus augusti, e um cronista da época se qualifica com a expressão “adventus divi” no dia da chegada do imperador Constantino. São Gregório Magno (590-604) foi o primeiro papa a estabelecer um ofício para o Advento e o Sacramentário Gregoriano é o mais antigo documento em predispor missa específica para os domingos deste tempo litúrgico. Nas primeiras obras cristãs da Igreja, especialmente na Vulgata, adventus se transformou no termo clássico para designar a vinda de Cristo na terra, a saber, a Encarnação, inaugurando a era messiânica e, posteriormente, sua gloriosa vinda no final dos tempos. Esta informação nos colabora para adentrarmos no mistério e tempo que estamos a viver e descobrir. Os cristãos não estão a se paganizar ou escamotear um sincretismo espiritual. No ano de 2016, em Londres, o Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, disse: “na liturgia minha cultura é batizada”.

Recordemos o Cristo, “que mais poderei usar para comparar a vós o Reino” (Lc 13,20), é preciso pensar a partir do mínimo que se conhece, caso contrário, a pessoa não fará o percurso do que se coloca diante de si. Portanto, a Sabedoria do Espírito, “Quando Ele vier lhes explicará…”(Jo 16,13), ajuda-nos a passar daquilo que procuramos ou precisamos sem clareza, para aquilo que Deus nos oferece como solução, desta forma nossos simples conhecimentos e desejos são transbordados pelas verdades e graças do Verdadeiro Deus e verdadeira vida.

O Advento em si é esse tempo (Kairós) de vida que os cristãos não “fazem de conta” que estão esperando o Senhor chegar, porque Cristo já veio na história e o esperamos na Glória, seja Dele ou nossa. Este tempo nos possibilita retomar dois acontecimentos históricos, um da humanidade e outro particular. O da história é a vinda de Jesus como Filho de Deus e Salvador da humanidade, encarnado no tempo (Krónos) e o particular é minha aceitação de Jesus como meu Senhor e também Salvador.

Este tempo deve ser vivido com essa intensidade, não um tempo melancólico de sentimentos passados, ou espiritualismos futurísticos, é um tempo de atualização, em que a pessoa se assume como humanidade redimida pela força do Espírito que envia o Filho de Deus. É preciso confessar Jesus como único Salvador (Fl 2,11), porque ninguém vai ao Pai ou à vida plena se não por Cristo. A Mãe Igreja aos nos colocar neste ritmo possibilita essa alegria, celebrar o dia que o Salvador foi acolhido por Maria, pela humanidade e por minha pessoa, isto tudo nos é entregue na Noite Santa, da Vinda do Senhor. Celebrar o Natal é recordar a acolhida, a aceitação de Jesus em sua vida. Recorda-se quando foi que tu aceitaste Jesus como seu Único Salvador e Senhor?

A concepção que dá origem à gravidez é o acolhimento de uma nova vida e que leva a uma vida nova e diferente, não só a mulher grávida, mas o acontecimento atinge toda a família, que pelo tempo da gestação em si. Desta feita, não um tempo que se controla, mas um tempo, por assim dizer, senhor de si, toda a família tem esse tempo como oportunidade de se preparar para o nascimento. Aquilo que a mulher sente vivo dentro de si e toda a família com bons sentimentos, pensamentos e ações dá sinais interiores, chegará (Adventus) a visibilidade concreta da realidade tomada pelas mãos de cada um, como quem pega entre seus braços, realmente abraça o recém-nascido. O cristão(ã) neste Advento se prepara para celebrar esse dia que acolheu o Cristo e abraçou essa vida nova como resposta histórica da presença de Deus.

O evangelista que nos acompanhará neste novo Ano Litúrgico abre nossos olhos e corações, auxiliando-nos a viver essa presença do Cristo e nova vida acolhida na fé (Mt 24, 37-44). Mateus nos ajuda a ouvir com alegria a voz de Jesus que diz: “Ficai atentos”, “Não sabeis o dia”, “Vigiai”, “Compreendei bem”, “Ficai preparados” e o “Filho do Homem virá”. A vigilância é a marca feliz deste tempo radiante, está grávida não de esperança e sim de certeza. Pela fé cristã a pessoa vive esse tempo com seus afazeres, trabalhos, fadigas e vitórias em estado de profundidade, esta que desprende das coisas em si e por si mesmas, não de cabeças abaixadas e vidas diminuídas, mas o olhar e vida cristã, mesmo quando beija o pó dos caminhos, o faz de olhos altos e cabeças levantadas.

A vigilância pela fé cristã, não se manifesta em tensão como surpresa incerta do que virá, na verdade a vigilância cristã é fé de alegre atenção. É importante a distinção da vigilância cristã e uma vigilância sem a percepção da fé. A vigilância sem fé pode conduzir a pessoa a extrema tensão por incerteza do que virá, o que provoca certo desesperar-se. Bem outra é a vigilância cristã, esta leva a pessoa a atenção iluminada pela fé, desta forma a pessoa, mesmo em tempos tensos, não se desespera, mas é conduzida a contemplação dos sinais e presença da graça e bondade de Deus em auxílio para a vida plena.

Os cristãos estão, sim, em seus afazeres cotidianos como todas as pessoas no comum dos seus dias, todavia a atenção cristã conduz a pessoa para além do simples realizar algo, o cristão realiza coisas, se realiza com o bem que faz e ainda mais se santifica pelo que faz e vive isto em comunhão com o Senhor presente. Os exemplos que Jesus nos concede, estão corroborar para a percepção de tal experiência vital, diz Ele “que duas pessoas estão no mesmo lugar, outros fazendo a mesma atividade e outros levando a mesma vida, mas uma é levada e outra é deixada”. Não se trata de uma mera exclusão por demérito, quase que um filme dos “Vingadores” pela ação do Thánatos, esse tomado revela a disposição de quem fez opção pelo plano de Deus. Essa pessoa tomou no hodierno de sua existência o ser cristão e viver o Plano/Reino de Deus.

Os Cristãos esperam o Senhor na certeza de sua já presença (Mt 24, 43), suas ações ultrapassam o mero fazer isso ou aquilo, ou ainda fazer por fazer, o cristão(ã) é a pessoa que procura “compreender bem”, fazendo o bem, na experiência que isto é um tempo e oportunidade da vida levada na dinâmica da vitória, tão absoluta como a vitória de Cristo sobre toda a história. Portanto, o melhor que realiza é por luz do Cristo, realizando em tudo essa boa atenção à pessoa não lhe retira a alegria da experiência do seu ser, ser semelhante a Jesus, Filho amado do Pai Deus. Em tudo fazer e ser melhor, sou filho de Deus.

O cristão não “faz de conta” que o Senhor virá ou não virá, como quem se move na dúvida do “pelo sim ou pelo não” evito um pior. Cristão(ã) vive essa única certeza, o Senhor chega, como já chegou e ainda mais vem, Maranathá. Não se perde nos trabalhos, não se perde pelas pessoas, em tudo mergulha neste tempo da graça (Kairós) de Deus.

O tempo (Krónos) que vivemos pode se tornar muito sufocante, temos meios para nos abastecermos de muitas informações úteis e até das chamadas “Fake News”. Esse turbilhão de possibilidades pode levar a uma vida tempestuosa e por assim dizer, sufocante e depressiva por tantas indicações e modelos vivenciais. Neste mar bravio, que é a vida de cada um de nós, está a barca da vida cristã ancorada na vigilância, a alegre certeza, Jesus é vitorioso e me convida a acolhê-lo como vida tomada em minhas mãos e meu abraçá-la com toda minha confiança.

Levantemos a cabeça, busquemos o respiro que é o folego do Espírito que trouxe o Cristo ao seio da Virgem, vamos romper as teias dos amargos passados insuficientes, mas que nos deram santa resistência, rompamos as cadeias que nos impusemos pelas ideologias barulhentas dos gritos e ruídos dos distraídos e por isso extraviados do percurso de vida realizada e feliz.

Olhemos esse tempo com os olhos da Virgem e Grávida, Mãe Maria, pelo amparo de São José. A qualquer momento nasce Cristo, a qualquer momento e em todo momento tu podes ser tomado por Jesus, como a criança que nasce e é recebida no colo de sua mãe e família. Vivamos esse tempo como família de Deus, assim como abrimos nossas casas para as novenas pelo Natal, abramos hoje e todo dia, já que não sabemos o dia, e que maravilha, porque podem então ser todos os dias do ano, nascimento, realmente vida nova, tudo é tempo, tudo está em tempo, tudo está no Kairós de Deus. Maranathá, Vem Senhor Jesus!

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