Destaque Destaque2 Em Destaque

REFLEXÃO DOMINICAL (12/02), POR PADRE EDUARDO RODRIGUES CALIL

PARA DAR-LHES PLENO CUMPRIMENTO

Pe. Eduardo Rodrigues Calil

Apresentando o texto…

Continuamos meditando, neste domingo, o Sermão da Montanha (Mt 5-7), o maior discurso de Jesus no Evangelho de Mateus. O texto que nos é proposto neste domingo é relativamente longo e só pode ser pensado tendo em vista as bem-aventuranças. O modo como Jesus se posiciona em relação à lei mosaica, a sua liberdade e soberania ao interpretá-la, deve ter assustado a comunidade de Mateus que devia se perguntar pela validade da Torah (lei). Neste texto, isso aparece quando se mostra Jesus no lugar de novo Moisés, no alto da montanha. Ele ensina os seus discípulos um caminho de alegria e não de proibições. E, depois de apresentar as imagens do sal e da luz, ensina que não veio para abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em seguida, acrescenta que nossa justiça deve ser diferente da dos fariseus, e para mostrar isso, interpreta de maneira nova seis casos concretos, dizendo: “vocês ouviram isso, eu porém vos digo”… Mas como, se ele não veio para mudar nada?

A Lei e os Profetas

A Escritura hebraica (TaNaK) era formada pela Lei (a Torah), os Profetas (Nebiin) e os Sábios (Ketubin), mas de modo sintético pode-se referir-se a ela assim; como a Lei e os Profetas.

A primeira leitura deste domingo dá uma boa ideia do que é a Lei e de qual é o seu espírito. Seu grande objetivo não era o de ser um fardo pesado sobre os ombros do povo (Cf. Mt 11, 28), um jugo esmagador, mas o de ser uma instrução para a vida. Um caminho para a vida e não para a morte (Eclo 15, 16). Mas a Lei tornou-se exatamente o oposto disso; não um caminho de felicidade (Sl 118/119, 1-2), mas um instrumento de subjugação (Cf. Mt 23, 4).

Já os escritos proféticos podem ser compreendidos como um grande apelo à fidelidade para com Deus. Fidelidade à sua aliança expressa no compromisso com o pobre, com a viúva, com o órfão e com o estrangeiro. Aliança que se expressa, portanto, na justiça. Mas a justiça aqui entendida como ajustar-se a Deus e ao seu querer, que é o nosso próprio bem.

Pleno cumprimento

Jesus veio para dar pleno cumprimento à Lei e aos Profetas e não para abolir nem para tirar nenhuma letra ou vírgula até que tudo se cumpra. Isso de modo nenhum significa que Jesus interprete a lei de forma literal ou fundamentalista. É exatamente o contrário, como veremos a seguir…

Ao dizer “pleno cumprimento”, o evangelista usa a palavra grega “plerôo” que significa levar à plenitude, plenificar. Jesus veio para levar à Plenitude a Lei e os profetas, torná-la perfeita, não para cumprir normas e preceitos. Dar pleno cumprimento não significa executar algo com perfeição, mas aperfeiçoar, levar à perfeição a própria Lei e os Profetas. E como ele o faz? Recuperando justamente o espírito da lei e dos profetas, para além da letra.

É por isso que se justifica o que Jesus diz a seguir: é preciso que nossa justiça seja maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, pois caso contrário não entraremos no Reino dos céus. Ora, os mestres da lei e fariseus seguiam cegamente os preceitos e normas, de forma literal e sem interpretá-los. Não parece que é para esse lugar que Jesus nos quer conduzir.

Para seguir Jesus e sua justiça é preciso ser capaz de contrariar, inclusive a lei, quando for preciso fazer o bem. Ser justo é fazer o bem e não simplesmente se contentar em não fazer o mal, seguindo a norma. A verdadeira justiça é fazer a vontade de Deus, na atenção àqueles que Ele mesmo olhou com misericórdia, por meio de seu Filho, mesmo quando não há prescrições explícitas sobre determinados modos de agir.

Para mostrar que a nossa justiça deve superar a dos fariseus e mestres da Lei, Jesus reinterpreta seis casos concretos, fazendo uma leitura que ultrapassa o regime do que está escrito, em nome daquilo que é realmente importante. Não é que ele apresente contradições à Lei, apesar do uso do “porém”, mas ele a aprofunda, a alarga e radicaliza sua leitura. Radicaliza no sentido de que vai ao radical, à raiz do que está escrito.

Não matarás…(Mt 5, 21), mas não só…

Assim, sendo, não é suficiente ouvir o mandamento “Não matarás!” e não cometer homicídio. Basta não assassinar o irmão, mas ainda assim, massacrar, humilhar, oprimir, anular, desvalorizando-o em sua dignidade? Não basta não matar, é preciso também desenvolver relações fraternas que passem pelo respeito e pela superação do ódio e da ofensa. Não sentir raiva é impossível, mas Jesus condena “tratar o irmão com raiva”, isso, porque nossa justiça deve ser mais radical que a dos fariseus e mestres da Lei: não é suficiente evitar o homicídio, mas seguir matando de outros inúmeros modos o irmão.

Não cometerás adultério (Mt 5, 27), mas não só…

Para Jesus não é suficiente evitar simplesmente a traição, como consumação de qualquer ato, mas é preciso evitar deixar-se possuir, ou ser tomado pela vontade de trair. Jesus não condena o desejo, mas propõe que a fidelidade a quem se ama seja protegida e que o risco do adultério seja evitado não por simples legalismo, mas por amor e cuidado ao outro, cujo rosto clama: cuida de mim! Quando fala abertamente contra “olhar uma mulher com o desejo de possuí-la”, denuncia o sistema patriarcal que toma as mulheres como simples objetos de uso e descarte. E propõe cuidar da fidelidade na raiz: desde o olhar aos pensamentos. O desejo é obviamente uma irrupção, Jesus denuncia a corrupção do coração: quando aquilo que ali se despertou não foi cuidado e virou maquinação, planejamento, deliberação que não leva em conta o rosto do outro. É preciso arrancar o mal pela raiz, daí as metáforas: “arrancar o olho”, “cortar a mão”…

Não dar carta de divórcio (Mt 5, 32), mas não só…

A terceira admoestação de Jesus talvez seja a mais problemática de todo esse evangelho, justamente por conta do excesso interpretativo em relação a ela e que serve de sustentação para certos rigores numa teologia do matrimônio atual. É preciso lembrar que o matrimônio na época de Jesus não é a mesma coisa que o matrimônio séculos depois para a Igreja. E recordar também a situação da mulher dentro da estrutura matrimonial da época de Jesus. Ela podia ser descartada a qualquer momento, por qualquer razão, até por causa de um capricho do homem.

O texto estaria melhor traduzido assim; ao invés de dizer que ao despedir uma mulher, o homem faz com que ela se torne adúltera, seria melhor dizer: “faz com que ela cometa adultério”. Descartando uma mulher por qualquer razão, dando-lhe carta de divórcio, o culpado pelo adultério dela é o próprio homem. A responsabilidade deixa de cair só sobre a mulher que, além de ser descartada, era considerada culpada por ser devolvida. O homem também deve ser implicado, pensa Jesus.

Mais ainda: a mulher devolvida ficava em situação de desproteção, podendo jamais ser dada em casamento de novo, ou indo, inclusive, parar numa vida de prostituição, além de comprometer a honra familiar e o dote oferecido. Jesus pensa, então, sobretudo na dignidade da mulher. Se este texto parece ser utilizado com o mesmo formalismo que ele pretende evitar é por não entenderem que para Jesus, o que interessa, aqui, é que a mulher seja protegida diante da onipotência masculina de sua época. Isso é muito diferente do que ignorar que muitos casais enfrentam o fracasso de seus próprios projetos conjuntos e da sua própria vida a dois, ignorando, assim, que é preciso cuidar deles com o mesmo amor com que Cristo cuidava dos marginalizados.

Não jurarás falso (Mt 5, 34), mas não só…

Nessa última admoestação, Jesus não só previne contra o juramento falso, como a Torah já prescrevia (Lv 19, 12), mas também contra todo e qualquer juramento. Ora, os juramentos eram muito utilizados em sua época, mas se eles existem é porque existe desconfiança. Jesus quer uma comunidade de fé que viva a partir da transparência. Não basta simplesmente não jurar falso, usando o nome de Deus, coisa de que o bom judeu buscava se precaver. Trata-se de não jurar, de ser sincero, de bastar a palavra e seu peso: sim, sim, ou não, não. Tudo que passa disso é próprio da malignidade do antirreino. É no antirreino que prevalece a mentira, porque é da mentira que nasce a desconfiança (e vice-versa); da desconfiança vem a divisão e, na divisão, a fraternidade fica comprometida.

Para rezar…

Podemos ser muitas vezes tomados pelo legalismo e pelo formalismo, vivendo a vida cristã como uma busca por cumprir regras, ou culpados por não as cumprir. Jesus nos liberta de uma justiça estrita e legalista, apontando para uma justiça que não está escrita nas pedras, mas que pode ser encontrada em nossos corações. Ela nasce da nossa disposição ao cuidado e ao carinho com o outro, conosco mesmos e com a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!