Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 1º Domingo da Quaresma

O Filho de Deus perde ou ganha?
Homilia 1º Domingo da Quaresma – Ano A
Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, “Eis o tempo de conversão, ao Pai voltemos, juntos andemos…”, diz o canto. A etimologia latina, “Quadragesima dies”, faz referência ao quadragésimo dia final em preparação para a principal festividade do ano litúrgico, que é a Celebração da Ressurreição do Senhor Jesus, tendo sua primeira celebração ao chamado Tríduo Pascal, a “Cena Domini”, Ceia do Senhor, “Desejei ardentemente comer essa páscoa convosco antes de sofrer” (Lc 22, 15), na Quinta-feira Santa. Esses dias quaresmais, desde os primeiros séculos do cristianismo (século IV – V no Oriente), foram percebidos à luz do grande ato amoroso de Cristo, expresso em sua paixão, como em Jesus, nada pode ser compreendido sem a expressividade do amor do Pai no Filho, pelo bem de todos em seu caminho e pelos séculos. No rito Romano, diferente do Ambrosiano, o primeiro destes quarenta dias acontece com a Quarta-feira de imposição das cinzas, o que remonta aqueles que, no início do cristianismo, se colocavam numa espécie de ascética-iluminatória, abandonando modos paganizados de vida e se deixando moldar pelas mãos do Oleiro Divino nos chamados escrutínios para os catecúmenos (pessoas que se preparam para receber o batismo e outros sacramentos do início da vida cristã). O jejum praticado estava referenciado e radicado na totalidade da Eucaristia como alimento e comunhão com o Plano Salvador do Pai, na pessoa do Filho Jesus, não tinha um pensamento individual de uma força pessoal de autocontrole, mas realmente a compreensão da comunhão com Cristo, seu corpo místico e imitação de sua vida como ato de entrega.

O Primeiro Domingo Quaresmal, por sua vez, nos toma já com alguns dias desta caminhada em direção à Páscoa do Senhor e esperança de nossa vitória com Ele definitiva. Nessa caminhada, não de sobrecarregar-se com memórias de pecados e erros pessoais passados, quase que auto-pietísmo, risco de tirar o foco e propósito deste tempo, que é de comunhão com a vida vitoriosa de Cristo (Jo 16, 33), somos iluminados pelo evangelho de Mateus 4, 1-11, nas chamadas “tentações de Jesus no deserto”. O texto nos ilumina em referência aos “quarenta dias” de Jesus, estes serem então luz para os nossos dias, só que não apenas estes da Quaresma, mas pela vida nossa de cada dia até ela toda. É simbólica a referência aos quarenta, tempo marcante no Antigo Testamento: os quarenta dias do dilúvio; os quarenta dias passados por Moisés no monte Sinai; os quarenta dias que os exploradores judeus levaram para explorar a terra em que entrariam; a jornada de quarenta dias do profeta Elias para chegar ao monte Oreb; os quarenta dias que, na pregação de Jonas, Deus dá a Nínive antes de destruí-la; os quarenta anos passados por Israel no deserto.

A realidade que estes “quarenta dias” (Mt 4, 2) são muito mais que um tempo cronológico, que separa uma realidade de outra, e sim, um “Kairós”, um tempo oportuno da graça de Deus para o povo, este povo que se prepara em consciência iluminada e ajudada pela força amorosa de Deus que os conduz. Experiência belíssima é a certeza de ser conduzido pelo amor, isso coloca a vida em outro ritmo e disposição. “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4, 1). Parece-nos estranho que Espírito de Deus conduza justo ao campo de ação do “adversário”, pois tanto a palavra diabo, como satanás, se referem à adversidade ao Plano de Deus, a ação do Espírito está em perfeita fusão com o trecho do batismo de Jesus (Mt 3, 16) onde Jesus assumiu a existência humana em toda sua expressividade e contingência. Portanto, o Espírito conduz a Jesus para o deserto, não apenas geográfico, mas condição humana de exposição de si a tudo, inclusive ao adverso ao Plano de Deus, o seu Pai, o assumir de nossa condição humana em Cristo é total, isto é belíssimo, Jesus realmente assumiu nossa humana condição, é possível sentir o Filho de Deus em mim, quando me sinto em minha carne a sinceridade do que sou e estou passando. Magnífico amor solidário.

Duas circunstâncias, a Força Divina que impele a pessoa e a proposta adversa, não duas forças antagônicas, uma só Força, que não força ninguém, mas é presença e uma proposta que divide entre a totalidade do ser filho de Deus ou submissão às circunstâncias. Tendo presente que o Espírito é a certeza do amor de Deus Pai que acompanha a pessoa; clareza que o deserto, não é espaço de ausência, mas consciência de si e valor da vida, como bem absoluto, pois se poderia pensar no deserto, importante é a água, importante é a comida, importante é proteger o corpo das forças climáticas. Não, isto tudo põe em relevo o cuidado com a vida, ela sim é o preciso dom, todos os outros recursos, meios e eventos estão em medida à vida; ainda frente a tudo e que tanto o diabo, como suas propostas, fazem parte da realidade humana, podemos nestas sínteses perceber que estas “três tentações ou seduções” são também a condensação da vida toda de Jesus, que é luz para todos os dias e anos também de nossas vidas. A “fome” que Jesus manifestou retrata, em disposição ao cuidado da vida, dom maior, a permanente necessidade e consciência de que a vida precisa ser sustentada, realizada e plenificada.

Sem pretensão de restringir a grandeza, alcance e riqueza do texto, me permitam uma leve apresentação da dinâmica da “fome”, esta que é o gatilho de percepção e eleva a expressividade da vida como bem absoluto, das seduções e das respostas de Jesus pela plenitude da vida.

A primeira situação (Mt 4, 2 – 4) expõe pela sedução diabólica a realidade de usar a própria “palavra”/percepção (“manda que…”) ou compreensão sobre as realidades em vista do próprio interesse para se satisfazer, o que Jesus ressalta é que o ser humano tem suas propostas momentâneas, estas que podem até um certo período parecer solução e ajuda, mas a proposta completa e que dura eternamente é a Proposta e Plano de Deus, esta proposta não precisa alterar as realidades, invertê-las ou até diminuí-las. Exemplo: a pessoa deseja um amor para saciar sua “fome” de vida relacional, mas não se vale do Plano de Deus e com isso não se intensifica, endurecendo o coração como pedra e vai se propondo ao “enquanto dure”, isto até parece bom por um tempo ou por raros momentos, todavia, a falta da força vinda da certeza, a vida é dom cuidado por Deus Pai, leva ao esfriamento da vida a dois, isto pede e dá razões à separação ou seu permanente e diabólico fantasma. Isso não sacia, pois não é a Proposta/Palavra de Deus. Portanto, Jesus escolhe não o momento como fim, mas a vida na sua plenitude. O que nós devemos nos propor, não viver de momentos famigerados, mas vivermos de maneira plena.

Em Mateus 4, 5 – 7, temos a proposta da confiança absoluta das associações humanas e da força dos grupos, como meio de alcance aos objetivos de uma vida confortável e segura. A atitude de Jesus coloca em evidência que a confiança do filho de Deus ou cristão está radicada na confiança absoluta em Deus Pai. Somente enquanto vivência da filiação divina a pessoa alcança sua real personalidade e exercita autêntica identidade, a identidade de uma pessoa não pode depender das mãos alheias, a dignidade da vida humana está por ser modelada à imagem e semelhança de Deus Pai e não por permissão de uma pessoa ou grupos sociais. A vida é valiosa e livre enquanto dom de Deus e por isso, quem vive a fé, coloca sua confiança absoluta só nas mãos e na Palavra/Proposta de Deus Pai.
O diabo leva Jesus a um monte alto e de lá mostra os reinos (Mt 4, 8 – 10). O deserto não é lugar apenas geográfico, mas teológico, assim “os reinos” são as formas de comando que se estabelecem entre os povos e grupos sociais, o que coloca a questão vital, viver nestes e com estes esquemas, para poder ter lugar, ou enfrentá-los? Jesus agora mostra quem manda, ele sempre confiado na Palavra do Pai, única Proposta capaz de conceder a plenitude à vida, diz: “Vai-te embora”. Cada lugar ou reino pode ter seu “manda chuva” e até o mundo pode ser todo inteiro orientado pelo diabo, mas não é, no entanto, quem é filho e filha de Deus, só adora a Deus e a mais ninguém, ou seja, o cristão só se curva perante Deus – coisa mais linda os pais ensinarem aos seus filhos e filhas: “Escute o papai, escute o que a mamãe vai dizer, nós somos batizados, então nosso único Senhor é Jesus Cristo, por isso nós não nos curvamos perante os vícios, as seduções, perante o dinheiro ou as ameaças de poder deste tempo”. Que família maravilhosa, livre e plena será a sua.

Caros irmãos e irmãs, ainda mais nesta caminhada para a vitória da Páscoa somos financiados no exemplo de Santa Dulce, Anjo bom do Brasil, nesta Campanha da Fraternidade, com o bonito lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33 -34). Jesus sempre se deixou olhar no “deserto”, na consciência da vida, dom maior guardado pelo Pai e por seu Amor, por isso seu “deserto/vida pessoal” é cheio de anjos e fartura (Mt 4, 11). Somos convidados à consciência e experiência deste olhar, sempre olhados pela compaixão de Deus como Pai misericordioso, imagem inspiradora essa do Pai que é refletida no “Samaritano”, ele não tem um olhar de irmão para com aquele homem caído à beira do caminho da vida, o olhar de irmão às vezes é muito pouco, por isso o “Samaritano” tem o olhar da compaixão paterna, esse olhar é o olhar de quem se deixou olhar Por Deus como Pai e aprendeu no coração, por isso traz em si o Amor de Jesus Ressuscitado, “como o Pai me amou também vos amei” (Jo 15, 9).

Quaresma é tempo de renovarmos a consciência que nossa vida está sob a condução do Espírito Santo, quem se torna discípulo da Palavra, mas não ao “pé da letra” como se diz por aí, pois o diabo fez essa interpretação e tomou uma surra eterna do Filho de Deus, A Declaração Dominus Iesus nos lembra da importância, a real e eficaz interpretação das escrituras para o bem do entendimento e vivência comunitária da fé. Procuremos a docilidade ao Espírito e nossa vida será plena, alcançaremos uma Páscoa melhor que a do ano passado, nossos desertos estarão cheios de fartura, de anjos, de “Dulces” e seremos samaritanos, reflexos do amor do Pai Deus, que desde muito tempo desce por amor ao seu povo e a todos concede vitória (Ex 3, 7 – 10).
Santa Quaresma a todos. Amém!

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