Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical| 2º Domingo da Quaresma

Fonofobia ou Coragem?
Homilia 2º Domingo da Quaresma – Ano A
Pe. Joéds Castro
Padre Diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, subamos ao monte com Cristo neste domingo nominado de Transfiguração do Senhor (Mt 17, 1- 9). O Tempo litúrgico da quaresma é um “Kairos” para a Páscoa, ou seja, é um tempo da bondade intensa de Deus Pai para a conscientização do grande evento da vitória de Jesus Cristo sobre o “limite final” da esperança humana, a morte. O texto deste domingo fixa o marco objetivo da caminhada quaresmal, “Não conteis a ninguém essa visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos” (Mt 17, 9), a Ressurreição de Jesus é o fato absoluto da experiência da vida cristã. Diante de tantas coisas grandiosas que Jesus já havia realizado pelo Reinado de Deus Pai a vida transparece maravilhosa, no entanto, o fato da ressurreição coloca no entendimento que existe mais, este mais, não atrai para um depois isolado, mas preenche o agora na certeza do conviver pelo evangelho o alcançar da plena vida.

É necessária a permanente consciência que a vida e o tempo não começam em cada pessoa, mas a vida de cada pessoa traz em si o começo e objetivo amoroso do Eterno, estamos todos envolvidos neste agora, todavia, nossos olhos anseiam o que nossos corações desejam a mais. Jesus coloca luz nas expectativas dos discípulos, eles anseiam o “mais”, mas seus meios estão contagiados da nostalgia pelo que se “eternizou” dos contos passados, e é preciso olhar para frente, é preciso olhar mais alto, é preciso olhar em si e ver além, isto Jesus os proporciona, em sua transfiguração os faz olhar nele e ver para além dele, para o que colocou esses discípulos nestas alturas, alargando seus horizontes.

Diz Mateus que “seis dias depois” (Mt 17, 1) Jesus leva “três discípulos” sobre uma alta montanha, percebamos estas informações importantes que nos conectam com a ação de Cristo naquele tempo e que nos é oferecida hoje pela Mãe Igreja a nos modelar em discípulos do Cristo. O grande e marcante “Sexto Dia” foi sempre o da criação do ser humano, em que o ser humano na obra da criação é o destaque, tanto que recebe a identificação e o Sopro Divino. O verbo utilizado é muito interessante, se diz “paralambanei” no grego, que significa “associar-se a si mesmo”, para melhor compreendermos; Jesus com suas mãos, como quem carrega, leva esses três discípulos a uma terra mais alta, Jesus como o Pai Criador, que modelou da terra o ser humano, quer ajudá-los a entender o que o ser humano criado é chamado a ser e viver. Somos criaturas, é verdade, mas nossa condição de criatura, pelas mãos de Deus, é chamada a uma participação também na divindade, a graça divina em nós nos difere na ordem da criação.

Por que esses três discípulos e não outros ou todos são levados? O que tem despontado na identidade destes, que os diferencia dos outros para essa escolha laboriosa de Jesus? Vejamos, Pedro é aquele de forte coração, mas não pensa como Deus (Mt 16,23), sua forma de pensar está tomada pelas instituições de poder e por isso deseja que o Reino de Deus seja concebido nos mesmos moldes e manutenções das instituições – Sacerdotes, Sinédrio e Escribas. Isto possibilita ligar a mentalidade Pedro à figura de Moises, legislador por excelência da sociedade de Israel, que aparece na transfiguração, como representação da lei identitária do povo de Israel. Thiago e João, são pessoas de grande disposição, mas os corações ainda estão tomados de vingança (Lc 9, 54), para eles o Reino de Deus será alcançado por meio de atitudes de poder, revolta e vingança. Sobre vingança também nos possibilita uma conexão com o profeta que é visto com Jesus, Elias, homem de Deus de coração flamejante, ele é conhecido por uma grande vingança contra os profetas de Baal do templo do rei Acab (1Rs 18), os desmascarou, mas também matou-os a todos pelo fio de espada. Essas personalidades e concepções se entremeiam e também parecem nos representar. Pensamos que o Reino de Deus, a vida na sua plenitude, partirá de nossas concepções e em muito direcionada contra nossos dissabores da sociedade, mas pelo jeito não seremos nós e nem do nosso jeito que acontecerá o Reino, porque o Reino é para “os pobres em espírito”, mas o Reino é de Deus e do jeito dele, ainda bem, porque também somos todos de Deus.

Acontecimento muito importante, mas não o maior, é a “Transfiguração”, palavra que no grego se diz “metamórphosis” – “mudança de forma” – metamorfose, diz o texto que Jesus “metemorphôthê”, ou seja, Jesus, não foi sujeito absoluto de sua transformação, mas foi revelado em sua totalidade por uma força exterior, corrobora os detalhes que seu rosto se tornou brilhante como o sol e suas roupas ficaram brancas (Mt 17, 2), ainda o mesmo acontecimento no evangelho de Marcos 9, 3 acrescenta que as roupas receberam uma brancura que “nenhuma lavadeira no mundo poderia alvejar”. A transfiguração ou metamorfose em Jesus se difere da lagarta, essa instintivamente em seu processo natural a faz passar para a forma da borboleta e assumir uma vida diferente, caso contrário morre incompleta, em Jesus sua metamorfose o faz continuar a ser quem é, e seus atributos tomam o tom definitivo. O Plano de Deus, não nos fará sermos quem não somos, mas quem realmente podemos ser.

A transfiguração não advém dos planos humanos, tanto que o Plano não está em falar com os discípulos, Moisés e Elias falam somente com Jesus (Mt 17,3), o evangelista vai nos dando a chave de compreensão, as formas passadas de orientação ( lei) e de atitude ( profetas), apontavam para a perfeição e beleza que está em Jesus, com a pessoa de Jesus essas só lhe dão o suporte do tempo para uma compreensão agora aperfeiçoada, não precisa mais, como Moisés, cobrir o rosto, ou como Elias, esperar dentro de uma caverna. A vida plena e definitiva está na pessoa de Jesus, assim viver como Jesus viveu, não ter medo de se abrir ao Plano de Deus, esse não vai destruir a vida, a identidade da pessoa ou o mundo, mas vai conduzir à plenitude por sua força e graça atuante.

Pobre Pedro e que tão bem nos representa agora a todos, quer dar opinião de como viver o Plano de Deus e onde implantá-lo, querendo orientar o próprio Jesus, “está bom aqui e vou fazer três tendas” (Mt 17,4). A imagem da “tenda” recorda a morada provisória do povo de Israel, ainda está equiparando Jesus a Moisés e Elias, Pedro não percebeu que existe o que é provisório e o absoluto, nossa tentação atual, o momentâneo, fazer do provisório o absoluto. Somos criaturas provisórias, mas chamados ao absoluto, esse absoluto há de se manifestar em nós, mas não por nosso pobre gosto provisório, irá manifestar o nosso absoluto pela força do Eterno do Pai Deus. O Pai, pela Força de seu Amor, resplandecerá nosso contínuo, saindo das baixezas nas planuras, nas “periferias existenciais”, para as alturas da vida em sua completude. Diz Santo Tomás “Tota Trinitas apparuit: Pater in você; Filius in homine, Spiritus in nube clara – A Trindade inteira apareceu: o Pai, na voz; o Filho no homem, o Espírito na nuvem clara” ( Suma Teológica, III, 45,4 ad2 cf CIC§ 555). É Jesus nosso definitivo.

Eis quem transfigura o Filho é o Pai e por isso fala diretamente a eles que nos representam, “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5). O cristão só pode sê-lo à medida que se identifica com a pessoa de Jesus Cristo, ir a uma igreja, comungar, receber sacramentos, participar de pastorais e bênçãos são aspectos do que segue o agir, mas antes de algo fazer é preciso a decisão de ser, o que referencia a pessoa a Cristo é o cumprimento do que disse o Pai, escutar somente a Cristo. Parece ser isto a grande tempestade da vida de quem se coloca como discípulo de Jesus, achamos tudo muito interessante, as palavras de Jesus, seus milagres, ficamos até com pena de seus sofrimentos e nos encantamos com sua glória, mas quando se trata do que dá a possibilidade a tudo acontecer, que é o ouvi-lo no sentido de obedecê-lo, isto nos escapa. Queremos nos apoiar em leis e sentimentos antigos para encaixotar Jesus. Até podemos subir as alturas com Cristo, mas sem obedecê-lo não seremos o todo que precisamos e devemos alcançar.
“Caíram com o rosto por terra de medo” (Mt 17,6), o que os fez ter medo? Jesus transfigura, aparece gente importante do passado, estão nas alturas da montanha, são envolvidos por uma nuvem e nada os apavora, mas quando escutam o Pai dizer que é do jeito de Jesus viver o seu desejo e que se deve escutar somente a Cristo, pronto, a causa da fobia. Será esta nossa fobia, ou seja, nosso maior medo é obedecer somente a Jesus? “Levantai-vos e não tenhas medo” (Mt 17, 7), diz Jesus a eles e a nós hoje. Não tenhamos medo de obedecer a Jesus, não tenhamos medo de enfrentar essa subida com nossas próprias pernas. Um dia também estaremos caídos com o rosto em terra, talvez mais terra sobre o rosto do que ele sobre a terra. Entende essa realidade? Todavia, feliz quem procurou ouvir Jesus em vida, pois conhecerá sua voz de Pastor, quando na hora da morte lhe disser: levanta! Quem escuta Jesus em vida não terá dificuldade de ouvi-lo na morte, mas quem não o obedece na vida, será que irá obedecê-lo após a morte? Cristão é quem obedece a Cristo e somente a ele. “Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (Mt 17, 8).

Algo ainda muito importante e belo, no versículo 9 deste capítulo, relata que Jesus lhes deu uma ordem, não contarem a ninguém sobre a visão revelada na sua transfiguração, porque na transfiguração transpareceu a vitória de Jesus ao passar pela morte e ressuscitar, tanto que só poderiam contar da metamorfose a outras pessoas após sua ressurreição. Portanto, por que sabemos da transfiguração de Jesus? Porque como o Pai o transfigurou naquela montanha, o Pai o Ressuscitou após a morte. Que maravilha, caríssimos irmãos e irmãs, Jesus enfrentou no seu tempo as imperfeições das instituições, costumes e ideologias e as superou, viveu plenamente e ainda venceu a morte por sua obediência ao Pai.

Aproveitemos a quaresma como as mãos de Cristo a nos conduzir à montanha vitoriosa da vida plena, não nos percamos no momentâneo dos nossos sentidos e sentimentos antigos, a quaresma não é para o passado. Obedeçamos a Cristo, como cristãos e cristãs autênticos, o Pai irá nos fazer brilhar, alcançaremos nossa verdadeira estatura, participaremos do seu Reino, ele não será fruto de nossas revoltas, mas será a experiência da totalidade do Plano de Deus.

A Quaresma é este tempo forte de escuta obediente à centralidade de Jesus, como o PAPA Francisco coloca na sua Exortação Pós-Sinodal – Querida Amazônia, nº 64, a excelência do “Querigma”, o anúncio de Jesus Cristo como causa da vida plena, essência da vida cristã e resposta aos anseios mais profundos do ser humano. Ouça Cristo sem medo na vida e verás sua glória na beleza de seu ser e de sua vida. Amém!

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