Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 30º Domingo do Tempo Comum

Dependurado no amor de Deus.
Homilia do 30º Domingo Comum
Pe Joéds Castro
Padre Diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, reunidos na alegria de celebrar o permanente amor salvador que se renova e fortalece cada pessoa reunida em comunidade em torno do altar, que é Cristo. É comum muitos se reunirem em torno de Jesus, muitos querendo ser melhores em suas próprias vidas o procuram com desejo de esperança, também muitos querendo ser “os melhores” que outros o procuram com desprezo fruto da descrença. A sagrada liturgia nos atualiza no encontro com a Pessoa de Jesus, Jesus tem mostrado, não só sua vitória pessoal, mas tem em si mostrado a vitória do Plano de Deus (Reino dos Céus), como o melhor para quem busca o modo de viver ou a vida melhor em abundância. Essa vida que não despreza nem os inimigos, mas abre portas na conversão a todos, chamando a experiência em se permitir deixar-se orientar pelo próprio Deus, o que na fé cristã é o Reinado de Deus Pai. Por isso as vitórias de Jesus sobre as más vivências, personificadas em grupos que se aliam pelo poder, refletem melhora na vida das pessoas. Passo a passo, ou de vitória em vitória, a mãe Igreja nos aproxima da vitória absoluta onde Cristo é celebrado como Senhor e Rei do Universo. Como toda pessoa está e faz parte do Universo a liturgia traduz que ao viver o Evangelho só Deus foi absoluto, o mal não reinou absoluto na vida da pessoa, as tristezas não reinaram, as derrotas não reinaram, o demônio não reinou, o Covid-19 não reinou, Cristo é quem reina, assim todo filho e filha de Deus é quem vence.

Neste XXX Domingo Litúrgico mais um grupo (fariseus) se aproxima da pessoa de Jesus (Mt 22, 34), numa ideia de que Jesus vencendo seus inimigos (saduceus) o torna um aliado poderoso para colocar os fariseus e assim seu modo de vida, não só religião, acima ou melhor que outras vidas, o que eles vão se surpreender.  O Evangelista diz que “um deles” questiona Jesus (Mt 22, 35), é preciso para entender algo, não só ouvir bem, mas, e às vezes, muito mais importante que ouvir, é conhecer quem faz a fala ou pergunta, pois muitos usam da oportunidade do diálogo não como modo de entendimento ou confronto justo e leal de conhecimentos, mas como oportunidade de imposição de interesses.

Quem pergunta no texto grego está descrito como “nomikòs”, de “norma legal”, sendo a pessoa uma espécie de “advogado legalista”, ou seja, sendo este fariseu um profundo conhecedor das leis e normas, essas que apresentavam nos cinco primeiros livros das Sagradas Escrituras (Torá), também resumidas em 613 preceitos ou deveres (hebraico “mitzvot”), destes 365 negativos (não faça isso a cada dia do ano) e 248 positivos (faça isso com todos os membros de seu corpo), isto deixa evidente que existe um interesse em fazer Jesus, não responder, mas fazê-lo calar como o próprio havia calado os saduceus pela força da lei escrita (Mt 22,31). Importante para nós refletirmos, buscamos estar próximos a Jesus, por exemplo, na santa missa com interesse de sua presença e ouvi-lo com desejo ou procuramos Jesus para aumentar nossas razões de afirmar o nosso modo de vida acima de outros? Aqueles fariseus vibraram com a derrota dos saduceus e já querem condenar até Jesus, será que podemos usar Jesus, a Igreja, o Evangelho e até condená-los para sobrepor um modo particular de vida?

“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36),pergunta ele a Jesus. Como dissemos, é tão importante conhecer quem pergunta como entender o que se pergunta. Os fariseus são o grupo dos que se distinguem ao rigorismo da Torá (Lei), pois para eles o quanto mais se pratica essas leis, mais a pessoa se identifica ao que ela crê e em quem ela crê. Desta forma se assegura tanto a identidade de Deus e do povo que a Ele se identifica (Ex 6,7; 19,5), vivendo essas normas se estabelece uma aliança entre as partes (Jr 31,33), o que evidencia o Deus verdadeiro, a Lei verdadeira e o grupo ou pessoa verdadeiros. Deus como parte da aliança também fica por assim obrigado à lei e qual seria o mandamento que a Deus obedece, o texto traz a expressão grega “megale” como “maior de todos”, recordamos que Deus descansou no sábado (Gn 2,2), portanto, se até Deus neste dia está impedido, a Lei ou preceito do sábado é o maior, maior até que Deus, eles muitas vezes se enfureceram por Jesus violar (fazer o bem Mt 12,12) no Templo ainda em dia de sábado. Contudo, a resposta de Jesus desinstala do terceirizado para o essencial.

Sobre coisas essenciais descobrimos muito nesta pandemia, que entre trabalhos essenciais ou de fundamental importância está a vida e aquilo que a mantém e que a vida não se separa de tudo o que é necessário para mantê-la. Assim descobrimos que Deus na expressividade religiosa não é essencial, mas a essência fundamental da existência e equilíbrio da humanidade. Jesus ao arrematar com a expressão no v.40, “krematai”,traduzido por “depende” em sentido de “segurar para não cair”, Jesus retoma a atitude que desinstala Deus, por assim dizer, das alturas na sua “kenosis” (Ex 3, 7-8). Portanto, o “krematai” que Jesus coloca evidencia suas duas ações, tanto uma de “segurar/dependurar” (depende)para não cair, mas abaixa para ajudar e “travar” para não condenar, mas expande a salvação.

A Lei e os profetas são provas do amor de Deus Pai para com esse povo que os tem como filhos, fundamentalmente o agir e a identidade de Deus é por amor, o que recoloca os mandamentos não como ameaças contra a pessoa, mas a identifica com seu Autor. Quem pratica o maior mandamento realmente se torna tão grande quanto opróprio ato, mas também qualifica aquele outro que é exposto ao ato. Desta feita o mandamento da Lei precisa ser acolhido como o dom de seu Autor, o mandamento e mando como um presente escrito por amor, a Lei é um presente muito mais valioso do que os tesouros ajuntados por um povo (Bezerro de ouro no deserto…). A Lei não é a pedra fria, mas a mão amiga amorosa de Deus que escreve tanto na pedra como nos corações.

Amarás com tudo que tens, com tudo que és e com tudo que podes (Mt 22, 37-39), recebido o amor na sua essência este se torna essencial, primeiro e se estende deste quem lhe deu, a quem o recebe e a quem se oferece. Quem ama a lei na sua essência de travar o negativo e estender os limites do positivo, também só pode agir e se identificar com o amor ao mais elevado que é Deus e ao seu semelhante, qualquer outro, até um inimigo. Jesus expõe quem quer ser legalista tem que ser um “apaixonado” permanente da Lei em si e do bem que esse amor legal pode bem aos outros fazer. Jesus não coloca mordaças nas pessoas “ephomõsen” (Mt 22, 34), por isso a Lei e os profetas vêm revelar o amor de Deus libertador.

A liturgia nos alerta que amar jamais leva as pessoas ao legalismo, por quanto mais leis a coibir os limites de expressividade da identidade, mais se desfigura a pessoa e sua convivência com seus semelhantes. Toda lei que não surge da expressão do amor divino traz somente condenação.

Bem resume um pensador quando dizia: “Corruptissima republica plurimae leges” – “As leis são muitas quando o Estado é corrupto”, ou ainda “Corruptissima republica plurimae leges” – “Quanto mais corrupto o Estado, maior o número de leis”, máxima latina atribuída a Tácito, historiador e político romano (56 -117 d. C.).

A lei dos cristãos é a identificação com seu Senhor, isto só é possível mediante a prática do amor. O que para outros parece uma obrigação impossível, embora seja cobiçada, que é amar, para os cristãos é sua natureza em essência. O amor é imperativo para quem descobre e aprende no mestrado de Jesus.

Busquemos Jesus, receberemos Dele o mandamento (Jo 13,34), não uma ordem impossível, mas um dom para nós e a ser levado como presente aos outros, até mesmo aos inimigos, mesmo com ou sem máscara o outro não é um bandido, mas possibilidade de viver o mais alto e bem que se possa ser. Arrisquemos a liberdade de viver por amor.

Vá à missa, encontre Jesus e sua comunidade, pois é na experiência Dele que se dependura e modula a identidade da vida amorosa dos que creem.

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