Reflexões Dominicais

Reflexão dominical: 32º domingo do tempo comum

Homilia XXXII domingo,
por Pe. Joéds Castro 

“Ama e faz o que quer” Santo Agostinho.

Estando prestes a encerrar o ciclo deste ano litúrgico “C” a Igreja, em sua pedagogia educativa para a formação cristã, nos faz no XXXII Domingo ouvir, meditar e rezar o texto de Lucas 20,27-38. Muito interessante, pois nos coloca diante de gente muito importante, mas que no evangelho de Lucas passou numa discrição quase fantasmagórica, os saduceus.

Ao longo do ano litúrgico acompanhando Jesus no caminho do Reino encontramos muita gente, pecadores, cegos, aleijados, leprosos, públicanos, fariseus, doutores da lei, juízes, viúvas, etc. No entanto, em Lucas os saduceus chegam sem cerimônias e interrogando Jesus como se fossem donos do pedaço. Até parece gente de igreja mesmo, vive ali na comunidade não se envolve pessoalmente com o que é do comum e quando chega perto pode “esperar”.

Quem são esses saduceus? Os saduceus formavam um partido principalmente político no judaísmo, a palavra saduceu deriva de Sadoc, este que no tempo do Rei Salomão ficou sendo o chefe da classe sacerdotal em Jerusalém (1Rs 1,32-40). Então os saduceus formavam a aristocracia sacerdotal, eles aceitavam somente a Tora como lei de Deus, ou seja, os cinco primeiros livros do AT, mas diferente dos fariseus, não aceitavam a evolução da religião. Parece gente de uma religiosidade muito firme, mas o texto traz um alerta diz que negam a ressurreição – Lc 20,27, ou seja, negam a imortalidade da alma e conforme At 23,6-8 a existência de seres celestiais como são os anjos. Essa situação vai ficando muito intrigante, por que gente tão religiosa que até acredita no sheol (lugar de condenação máxima), não acredita na salvação? Continuam parecendo gente de Igreja.

Esses “dois pesos e duas medidas” revelam seus interesses, pois como eram uma classe de elite se consideravam acima de todos, isto por que? Eles procuram viver de acordo com que aparentemente acreditam. Assim acreditam que Deus é um juiz severo e distante de todos, nisto como eles ganharam sua posição social pelo poder vivem se achando superior aos demais, pesam eles serem os suprassumos, tanto é que, até o sumo sacerdote vinha de sua classe – Jo 11,47s. Tanto quanto Deus é “distante” da vida das pessoas, assim eles se afastam dos outros e se relacionam com os outros mediante os preceitos da lei de julgamento, condenação e por isso num ferrenho elitismo excludente, onde é inaceitável a proposta crescente de Jesus, o Reino fraterno e igualitário de Deus.

Estas pessoas (saduceus) pensando em fazer o que estão acostumados, menosprezar os outros, desejam ridicularizar Jesus e colocá-lo no lugar onde pensam que deva ser-lhe próprio, dos sonhadores da ralé. Para isso evocam a situação relacional mais antiga, está balizada pelo Dt 25,5. Isto justamente para reforçar um duro legalismo, reafirmando que o plano de Deus não prevê ajustamentos ou aproximações até mesmo nas esferas mais intimas, aqui usado o exemplo do matrimônio, ou seja, cada qual sempre deverá ocupar somente o que já foi prescrito ou destinado desde sempre.

A problemática apresentada por eles nada mais faz que reforçar, o pequeno (a mulher viúva) deve ser subjulgado até o fim. Isto deturpa o plano de Deus e manipula o povo, porque o personagem que eles invocam (Moisés Lc 20,28) justamente foi chamado por Deus a libertar o povo, vai ficando evidente o costume deles de usarem da religião para validarem seu estilo de vida, onde o “forte” domina o “fraco”. A esta situação Jesus revela sua sabedoria divina e criadora, pois diz Ele sem negar a realidade, que neste mundo vivido até agora os interesses criam dependências relacionais (Lc 20,34). No entanto, o plano de Deus não é que as relações aprisionem as pessoas, mas que se sintam cada vez mais livres e por isso apoiam a liberdade nos outros, já que a vida não é destinada a morte, mas a plenitude (Lc 20,36).

Jesus corrige a distorção e diz que Deus não é distante, nem elitista, pois o mesmo relacionamento que teve com Abrão continuou a tê-lo com os demais, ou seja, aproximou-se, chamou, fez aliança, protegeu, abençoou e os conduziu a realização, também conforme Moisés os que viveram em Deus continuam a viver com Ele (Lc. 20,37). Jesus arremata a questão com uma sentença muito clara, “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele” ( Lc 20,38), desmascarados os frios legalistas e profissionais do sagrado, estes que usaram a vida toda da religião somente para manterem sua posição social e seus interesses materialistas a custa da espoliação dos outros. Dizer que “todos vivem para ele” não quer colocar as pessoas oprimidas por Deus, mas sim, que é Deus quem sustenta a vida, pois é Ele o doador de toda vida e por mais que o ser humano se esforce ou obrigue os outros (“os sete se casaram com ela”) não pode se achar dono de outras pessoas. E nós? Vivemos esse ano litúrgico só buscando resolver nossos interesses matérias, usando das pessoas, da religião e até de Deus para nos satisfazer egoisticamente?

Quem crê que “Deus é Deus dos vivos” não pode usar ou instrumentalizar as pessoas em vista de interesses egoísticos, quem de fato confia em Deus não está esperando simplesmente uma vida depois da morte, mas crer na ressurreição é viver uma vida sem medo, até da morte, como ultima barreira a impedir a vida. Assim quem crê na ressurreição vive já aqui nesta terra livremente, por isso se aproxima dos outros testemunhando e ajudando a também serem livres.

Deus não está a gerar gerações de escravos, mas em Jesus, filho amado, Deus revela que deseja todos como seus filhos e filhas, desta maneira não há quem seja mais ou menos importante, sendo todos criados por Ele como são os anjos, estão para servir a este plano de igualdade e amor, onde não cabe dominação utilitarista, mas uma fraternidade salvadora. A relação mais antiga, o matrimônio, que poderia dizer de uma subjugação milenar, dentro do plano de Deus nada mais é que um caminho para a libertação e plenitude, por isso entendemos que as relações devem ajudar as pessoas a se santificarem. Ninguém que tenha reta “fé” pode usar do outro ou manipular alguém para usufruir o que egoisticamente pretende. Levar uma vida de fé é se colocar tão livre que ajuda os outros a serem livres, os filhos de Deus vivem esse plano e por isso não temem perder ninguém, pois sabem que tanto a si como os outros pertencem somente a Deus. Então entendemos que só podemos nos relacionar com alguém nesta vida e até eternamente não porque se estabeleceu um contrato ou vinculo de obrigação com outra pessoa, mas porque uma pessoa é tão livre que ajuda a outra a também o ser. Como Jesus que ao longo desse ano curou, libertou, abençoou a tantos e estes não mais se afastaram dele, não porque se tornaram devedores para com Ele, mas justamente porque os fez serem livres, por esse motivo não podem ficar longe dele, pois quem aceita a liberdade que Jesus oferece não pode voltar a ser escravo de pessoas, coisas ou situações. Se afastar de Jesus é se afastar da verdadeira liberdade.

Preparemos para celebrar a Festa de Cristo Rei, este Rei libertador. Quem crê neste reinado vive a fé na ressurreição, não oprime, não julga, não instrumentaliza, não subjulga, não domina ou usa os outros, mas vive como filho(a) de Deus e se relaciona com os outros libertando as pessoas com quem relaciona-se. Pe Joéds

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!