Destaque Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 33º Domingo do Tempo Comum

O Deus do lucro.
Homilia do 33º Domingo Comum
Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, reunidos como corpo vivo do Senhor Ressuscitado presente no mundo inteiro, a Mãe Igreja nos coloca unidos pela santa liturgia em contato com a unidade entre o céu e a terra na pessoa de Jesus Cristo. Ao celebrarmos a liturgia deste XXXIII dia do Senhor, já faz soar aos nossos ouvidos as primeiras palavras do Evangelho de Mateus 25, 14-30. O v. 14 no grego diz que Jesus “ekalesen tous doulous” – “chamou os teus servidores”, consciência bonita, a Igreja não é só o templo de pedra, sinal estático, a Igreja é a unidade dos “chamados” e que amorosamente aceitaram o convite do Senhor. Essa consciência forte de pertença a Deus amor deve perpassar a compreensão e o coração do fiel, ser chamado pelo próprio Deus. Desde início da existência até sua morte neste mundo, o fiel entende sua vida como esse dom único e absoluto entregue das mãos do Divino e desta forma participa desta divindade, sendo algo neste mundo e vivida nele encontra identificação com o que aqui existe, mas ao conter do Divino a graça, não se restringe só ao aqui encontrado e referencia a algo mais que o mundo criado, por consequência divina toca a divindade, portanto a vida é de valor sagrado. É importante ter esses elementos presentes, o chamado inicial da consciência e a sacralidade da vida, pois estes nos ajudarão a compreender a intensidade desta confiança e valor expressos por Jesus neste Domingo Santo.

“O Reino de Deus”, Jesus usa mais uma belíssima parábola/comparação para explanar o que é a vida humana orientada pelo “Plano de Deus”, sempre bom lembrar que o Reino de Deus não é uma cidade construída depois da morte em cima das nuvens, mas é o dia a dia da vida real pautada pelo evangelho e que faz essa vida ser tão bonita aqui neste mundo que parece já o Céu (o melhor) na terra. Jesus usa desta comparação do Senhor que confia “talento”, o que vem a ser o talento? O talento começou por ser uma unidade de peso usada, sobretudo, para medir metais preciosos. Por exemplo, na Babilónia, um talento equivalia a 60 quilos. Imagine-se então o valor de um talento de ouro! Em épocas sucessivas, no período helenístico, o valor do talento baixou, situando-se então entre 35 e 26 quilos. De qualquer modo, um talento equivalia então a 6000 denários, sendo que o denário era o salário normal de um dia de trabalho. Um talento, 6000 denários, era assim o equivalente a uma vida inteira de trabalho! Portanto, quer sejam cinco ou dois ou um talento, é sempre algo muito valioso. Jesus para indicar a preciosidade, tanto do Plano de Deus, como da vida humana que se realiza, usa desta comparação.

Essa consciência permanente na vida de quem acolhe a fé cristã, proposta e caminho de atitude, o fiel cristão entende sua existência como esse bem valioso ofertado pela ainda mais valiosa e confiança de Deus na pessoa humana, assim os cálculos da existência humana vão acima e superam qualquer “bolsa de valores” do mundo e do tempo. Quem compreende isso se enche de entusiasmo (do grego in + theos, literalmente “se enche da força de Deus”), o que está muito bem expresso na rapidez e força destes que trabalharam e lucraram a partir deste bem valioso. Assim é a vida de quem acolhe a existência humana como dom divino, a pessoa se percebe valorizada, não como uma coisa, mas assemelhada com a divindade, em sua grandeza também se faz desta altura, sua força ou capacidade e também é tocada pela força e capacitação divina, tudo é lucro, tudo é graça. As expressões que Jesus usa retratam a consciência da pessoa fiel, já dizia santo Inácio de Loyola:“Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”.

A confiança Divina nos coloca diante da realidade do “Reinado de Deus”, não um mundo de escravos (doulous) ou “homo fabris”, fazedores de coisas, mas participantes da confiança e seres confiantes, entusiasmados, participantes dos lucros e das graças de Deus. Essa é a realidade do exercício do “Plano de Deus”, essa é a vida e para isso ela se destina, começa como dom da graça divina e se realiza na participação desta divina graça. Todavia, existe o perigo da compreensão errada da confiança e da própria vida, e por consequência também a vida alheia mal balizada, do receber a vida, não em seu peso de valor, mas como e somente peso, de receber a confiança, não como graça, mas como obrigação, de receber a chance, não como oportunidade, mas como cilada, isto é terrível. A vida se torna morte, o bem se torna mal e a confiança se torna em medo. Terrível situação retratada nos vv. 24-30, Jesus nos coloca diante desta pessoa que tem fobia da confiança Divina e por suas próprias palavras ou maneira de pensar a pessoa de Deus leva sua vida. No v. 24 diz que ele pensa Deus como “skleros” – duro, como dura é a parte branca do olho humano, nominada de esclera, assim Jesus nos faz entender como é a visão de memória dessa pessoa em relação ação de Divina, condicionado por essa percepção recebe sua vida como um peso e se enche de fobia, medo. Fica muito clara sua incompreensão, quando acusa Deus ao dizer que “colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste”. Ora, será que Deus toma o que não lhe pertence ou exige aquilo que é fruto do esforço de outros? Não. O que esse homem observa com as escleras de seus olhos é que estes que trabalharam duramente e oferecem a Deus uma parte, não estão agindo por coerção, mas por uma gratidão imensa, em exemplo o Dízimo; não é Deus quem toma uma parte do suor humano, mas é o humano realizado e agradecido que livremente expressa seu reconhecimento a Deus que lhe concedeu os bens e ainda lhe entusiasmou com sua força divina para que a pessoa conquistasse e em graça lucrasse.

O que nos faz compreender a expressão do v. 29 “todo aquele que tem será dado, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. A existência humana deve ser recebida como esse dom da confiante graça de Deus, por isso, neste final de ano litúrgico e que nos põe frente à conclusão da vida humana levada ou não pelo “Reinado/Plano de Deus”. Quem recebe a vida como dom e confiança de Deus “participa de sua alegria”, pois mistura sua existência, sua força, sua confiança e seus lucros com a divindade, o que explica ofiel ao dizer: nas alegrias e durezas da vida “graças a Deus”! Ao contrário, os que não recebem como graça a confiança e a vida, mas como só o peso sem o seu valor essencial, condenam suas existências a uma vida de medo, extirpando a confiança total, essa representada na segurança bancária (v.27). Nem mesmo a confiança institucionalizada e por contratos firmados é acolhida por quem não acolhe a confiança e a vida como fluência direta da bondade de Deus, o que retrata por esse desespero final de chorar e ranger de dentes, pois aquele que se decepciona ou se frustra com a vida, no fim chora e dirige seu lamento, explanando de sua própria boca a frustração aos ouvidos de outros ou ainda espumando os lábios com Deus, mas Jesus ao dizer que este chora e range os dentes, é a expressão deste que já não tem a quem explicar seu lamento e frustração a não ser consigo mesmo, por isso usa os dentes que foram dados para morder algo, mas agora mordem a si mesmos. Imagem terrível da pessoa frustrada que recebeu e enterrou (v.18), morde a si mesmo, odeia a si mesmo, reconhece sua própria culpa e responsabilidade. Não desprezeis a confiança maravilhosa doada por meio de sua vida como graça direta de Deus amor.

Muitos viam esses “talentos” como dons, carismas, potencialidades, mas retomemos o uso correto, o talento é a manifestação do Reino/Plano de Deus, materializados justamente na confiança que se faz presente na vida humana e em seu conjunto histórico. Aqui está a beleza e o extraordinário do “vem participar da alegria do Senhor”(v.23). Qual é a alegria do Senhor? Ora, a alegria de quem confia é levar confiança a outros, a alegria de quem recebe a vida é dar vida a outros. Eis a beleza dessa vida como dom, a muitos outros conceder vida, os pais em filhos participam da alegria do Doador da vida, essa é grande graça, a imensa alegria, o grande lucro, ajudar que muitos outros recebam a alegria da vida como confiança de Deus. A vida cristã consciente nesta experiência em receber de Deus e transmitir. Deus nos confia a nossa vida, mas também nos confia outras vidas, como a nossa vida deve ser apresentada a Ele em alegria, ajudamos, sejam nossos próprios filhos ou outras pessoas, a viverem e acolherem a confiança de Deus em suas vidas.

Preparemos com intenso júbilo para bem celebrarmos a grande Festa do Reinado do Senhor Jesus Cristo no próximo Dia do Senhor, esse é o nosso novo ano, Cristo Reine sobre nós. Vede quantos receberam suas vidas e tudo nelas como graça de Deus e por isso receberam muito mais outras vidas a serem na confiança levadas a Cristo. Quantas pessoas existem, por exemplo, nas cidades com nome de São Paulo, quantas pessoas nas cidades de São Sebastião, Santa Catarina… O cristão é como esses santos que são patronos de muitos. Apresentemos nossa vida e a vida de muitos como lucro para Deus, vivamos a salvação e muitos a Deus também apresentemos fruto de sua graça e força misturada às nossas capacidades. Já pensou que lindo Deus lhe dizendo: Como tu foi fiel em sua vida, vou lhe fazer padroeiro de uma numerosa comunidade?“Quem é fiel no pouco o Senhor lhe dará muito mais”. Tenha confiança no Senhor, Ele que te deu essa vida e tantos lucros, lhe dará vida eterna e muitas mais alegrias! Amém!

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