Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 3º Domingo da Quaresma

Quantos cântaros são necessários para batizar?

Homilia 3º Domingo da Quaresma – Ano A
Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, belíssimo tempo o quaresmal, tempo de profunda intimidade e comunhão do fiel com seu Deus e Pai em Cristo Salvador. O texto de São João 4, 5-42, como um baú do tesouro que ao ser aberto vai escorrendo riquezas, nos é agora oferecido. João em toda palavra constrói uma ponte em que cada passo leva o leitor a subir mais à presença íntima em Deus e possibilita Deus adentrar na medula existencial de quem atenciosamente busca a essência, seja à própria ou à divina.

O texto da liturgia deste belíssimo domingo começa no versículo 5º, mas é fundamental o início no capítulo 4º, pois contém uma informação importantíssima ao dizer que “Os fariseus inteiraram-se de que Jesus fazia mais discípulos e batizava mais do que João” (4, 1) e ainda no v. 3 expressa que Jesus ao saber da pesquisa dos fariseus vai retornar para a Galiléia, mas passando pela Samaria. Aqui está a chave para abrirmos este baú de riquezas que o texto, ponte de encontro entre o Criador e a criatura, dispõe ao nosso itinerário de vida cristã. No v.2 contém uma observação, mas que os exegetas não são muito conformes ou unânimes, e é uma provocação interessante: “Será que Jesus batizava ou não batizava”?

João Batista fazia discípulos entre o povo de Israel, mas será que é na sombra da catequese de João que Jesus vai captar também os seus? Jesus ao sair daquela região vai revelar que não precisa de “camas postas para se deitar” e que sua atividade atinge na adversidade até os adversários. O Plano amoroso de Deus não se restringe a facilidades circunstanciais ou agrega por afinidades sociais, o Amor de Deus é resposta aos anseios de toda a humanidade.

O texto da liturgia (Jo 4, 5-42) vai nos colocar diante de um batismo efetuado pelo próprio Jesus, numa situação e região totalmente adversas e com uma consequência fecunda de discipulado à sua pessoa.

O local do encontro é chamado “Poço de Jacó” (4,6), mais por lembrança do encontro de Jacó com Raquel em poço (Gn 29, 1-14), do que propriamente o lugar. Neste lugar de encontros chegou a hora do verdadeiro encontro. Temos acompanhado e frisado, o tempo quaresmal é o tempo da excelência na intimidade e da partilha sincera entre o fiel cristão(ã) e seu Deus Pai, isso tudo iluminado pelo Cristo. Jesus, “homem poderoso”, desvela o texto seus sentimentos, ele está fadigado do caminho e ainda mais, chegada à mulher estranha e estrangeira, mostra Jesus mais que seu rosto ou peito aberto nessa hora quente, mostra ele para ela seu interior, “Dá-me de beber” (v. 7). Que escândalo!

Jesus revela sua intimidade e ela protesta, não podemos ter intimidade, tu és judeu e eu samaritana (v. 9). Belíssimo e sincero encontro, Jesus, Deus amoroso, expõe sua intimidade, tendo ele muito mais força que Jacó, este que sozinho tirou “a grande pedra” do poço (Gn 29, 10), Jesus nos dá a conhecer, Deus não se resguarda à humanidade, Deus se expõe sem reservas, este é o caminho do amor de Deus a nós, este caminho que nos é proposto, não devemos nos resguardar diante de Deus, a Ele devemos nos expor, para que nos envergonhar de nossas fomes e sedes reais?

Que bela é a vida cristã, expor-se e deixar Cristo, Sol pleno, nos iluminar e fazer ver com toda a claridade quem Ele é, o que nós somos, por onde e quem realmente nos pode saciar. Sejamos sinceros, tu e Deus, te sacias sem realmente encarar o que te falta? Muitos não se saciam porque vivem nas sombras das situações ou de grupos ideológicos sociais.

“Jesus respondeu: Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4, 10). Jesus revela sua consciência e sua missão, sabe o que falta à humanidade, extraordinária e sincera encarnação do Verbo, sente em sua carne nossa carne, Jesus totalmente disponível a corresponder em auxílio solidário aos anseios humanos. Cristo partilha sem reserva de si, risco de quem ama, expor-se não em chantagem, mas atitude de confiança que o amor verdadeiro leva ao entendimento, o amor no Plano de Deus nunca é jogo de receber um prazer, um corpo, um objeto, ou uma sensação fugaz, o amor é sempre entrega de vida.

A Mulher estranha e estrangeira já não se percebe distanciada ou inferiorizada, dialoga abertamente, sincera expõe seu igual anseio de saciedade (Jo 4, 11), não encontrou um aventureiro, encontrou um Cântaro “sine cera”, um vaso “sem cera”, ou seja, encontrou em Jesus, o homem sincero.

Jesus ao se expor, não expõe imperfeições que necessitam ser mascaradas, como um vaso trincado que precisa ser preenchido por cera e esconder suas trincas, ao contrário. A sinceridade de Jesus possibilita a comunhão de vida com essa mulher, muito sincera também é ela e que não caminha nas “sombras” por aquilo que anseia. “Senhor, dá-me dessa água…” (4,15). Imaginemos a intensidade dos olhares que estão sendo fixados neste encontro e a força das palavras, como que “os corações estivessem a saltar pelas bocas”.

É a “água viva” que se procura, é o amor verdadeiro, é a vida na sua integral verdade o que se busca. É preciso ser sincero e as trincas e fissuras de nossa existência, não nos requer que escondamo-las. As nossas necessidades estão a nos acordar para o que realmente nos pode preencher, coisas materiais até nos ajudam por um tempo em preencher espaços, seja nos bolsos, nos prazeres e no passar o tempo, mas não se é tudo e muito menos a totalidade, também pessoas como a mulher diz, (Jo 4, 17) podem ajudar por um tempo, mas não é o absoluto.

Jesus ao dizer que a samaritana teve “cinco maridos” e o “sexto homem” que ela agora tem também não lhe pertence (Jo 4, 17), está colocando a verdade, por mais que se possa pensar que se possua alguém, ninguém pertence a ninguém humanamente. Em momento algum Jesus está constrangendo a mulher, requerendo dela a consciência de suas sedes ou que sofres por estar em pecado, e que era uma adúltera. Jesus “sedento” e essa mulher “sedenta”, ambos estão sem tocar em água física, estão mergulhando no mistério da existência um do outro.

A pureza da Samaritana. Jesus diz a ela: “Crê mulher…” (Jo 4, 21) Deus procura, ou seja, Deus também deseja em pureza e quem o procura também com pureza deve buscá-lo, recordo que nossas trincas, fissuras, erros ou pecados, não são empecilhos para a sincera busca, estamos sujeitos à nossa naturalidade criacional, não somos indefectíveis, mas somos muito mais que alguma “rachadura da carne”, somos também em essência. A mulher apesar de seus esforços reconhece as incompletudes até mesmo das mais altas seguranças, representadas nos sagrados templos. Beleza e maturidade que o coração do cristão precisa sempre nutrir, não se apegar excessivamente a pretensas seguranças – doutrinas, objetos e ritos, que dispensam da permanente busca do absoluto em Deus Pai. Mas a samaritana é pura ou não? Diz Jesus primeiramente, crê e depois afirma “Sou eu, o que falo contigo” (Jo 4, 26). E agora, tem Jesus e essa mulher intimidade entre eles ou não?

Os discípulos que foram buscar alimento chegaram e ficam “espantados”, “ethaumazon”, expressão que exprime uma novidade iniciada, dizia Aristóteles, filósofo grego séc., III a. C., “Pela admiração (“thaumázein”), os homens chegam agora e antigamente à origem imperante do filosofar”. O evangelista ainda expõe que os discípulos sem saber o que falavam ou ali tivesse sido tratado, ficaram “espantados” (Jo 4, 27), o respeito dos discípulos pelo encontro de Jesus com essa mulher nos faz reconhecer que os discípulos se viram no mesmo patamar discipular da samaritana e eles. Maravilha da vida cristã, Cristo é fonte que sacia a todos, sejam pessoas próximas ou gente de outros “mundos”. É fundamental anunciar Jesus pelo seu Evangelho.

A mulher deixou o cântaro e foi anunciar Jesus. Jesus havia lhe dito que acreditasse nele, a atitude de deixar o cântaro é prova que a mulher foi mergulhada na saciedade absoluta que preenche a pessoa por inteira. Espantoso, quando se bebe água, não só o estômago dá sinal da presença da água, todo o corpo sua. Ela está tão cheia de Fé e com a “água viva”, que sem a vasilha exterior, leva a outros o encontro sem condenação, mas de salvação. O mistério da “Mãe Igreja”, que repleta de Cristo, a muitos outros sedentos do Absoluto, vai humildemente lhes oferecer Jesus, “será ele talvez o Messias?” (Jo 4, 29). Que humildade, a Igreja tem Jesus como seu Absoluto e Fonte abundante da graça divina que sacia eternamente, mas pergunta aos outros, não será também Jesus o teu libertador? “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede…” (Jo 4, 10). Será que me encontrei com Jesus ou ainda não passei da ideia de que “mais vale o balde na mão, do que gole sincero”?

O texto da liturgia termina
dizendo que muitos samaritanos, pessoas avessas aos judeus e suas práticas, não receberam Jesus como um amigo, mas creram nele e acima de tudo, o proclamaram como o Salvador do Mundo (Jo 4, 42), muito mais que só para si, Jesus é bem para o mundo. Extraordinário encontro e ainda mais profundo em seus detalhes o texto contém.

Irmãos e irmãs, Jesus sem derramar uma gota d’água mergulhou aquela mulher e aquele povo no amor de Deus, por isso o derramar da água no batismo é sinal sacramento do mergulho no absoluto de Deus. Jesus como fonte de água viva batizou a mulher, saciou a ela e a todos aqueles outros que creram nele, esse é o itinerário permanente da vida cristã, encontrar-se com a pessoa de Jesus com sinceridade, ouvir seu evangelho, palavra iluminadora, ser mergulhado na imensidão de seu amor, este e somente este amor que pode saciar a totalidade de toda pessoa humana (Santo Agostinho, séc. IV – Confissões – “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”) e por fim quem bebe da fonte viva que é Cristo, não pode ocultá-lo, essa “água viva” sai pelos poros do batizado, mas alegremente vai anunciá-lo com humildade, não por Dele se envergonhar ou por timidez frente aos outros modos de vida, humildemente por compreender que todos tem sede, mas nem todos escaparam das “ceras” e máscaras do mundo que os impedem de sair das “sombras circunstanciais”, para caminharem neste sol do meio-dia.

Caros irmãos e irmãs, abandonemos os medos e permitamos Jesus nos saciar, deixemo-nos mergulhar pela graça de nosso batismo (“Ama aquele que habita em ti desde o batismo. Porque, habitando mais perfeitamente em ti, te fará cada dia mais perfeito” – St. Agostinho). Aceitas Jesus como seu único Salvador? Ele o é do mundo, mas e de ti?

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