Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 3º Domingo do Tempo Comum

3º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Evangelho de Mateus 4, 12-23
Pe Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia.

Caros irmãos e irmãs, celebrando a liturgia, deste Terceiro Domingo do Tempo Comum, conforme aqueles magos foram orientados por aquela Estrela e seguiram até o ponto de encontrar Jesus. Somos inseridos no Plano de Deus, para que possamos justamente encontrar este sentido profundo e as consequências desta vida levada no Plano de Deus. Conforme domingo último nós ouvimos João Batista dando testemunho e dizendo que ‘Jesus é este que batiza no Espírito Santo’, ou seja, Jesus é este que mergulha as pessoas no Amor de Deus. As pessoas, à medida que são mergulhadas no Amor de Deus, a vida dessas pessoas se torna diferente e por esta razão quem tem o verdadeiro amor se move em compaixão para com seus semelhantes, se tenho o Amor de Deus em mim, sinto forte desejo de também melhorar a vida das pessoas que são do meu tempo e principalmente as que convivem nos ambientes que estou presente.

O Evangelho disse que, ‘logo que João Batista foi preso, Jesus saiu de Nazaré e foi morar em Cafarnaum’ (Mateus 4, 12-13). Algumas dessas informações lhe interessam? João Batista que foi preso? Jesus que saiu de Nazaré? Jesus que foi morar em Cafarnaum? Alguma coisa dessas mexe com você, te faz ter pelo menos uma faísca de pensamento? Não, não é? Nós não somos parentes de João Batista, nós não moramos em Cafarnaum. Então, isto que Mateus está dizendo interessa para nós?

É preciso adentrar no sentido do Evangelho para que nós possamos compreender o que o evangelista está pensando, está colocando diante de nós. Pense aí, uma pessoa que é muito importante para a sua vida. (Pausa…) Vamos fazer uma hipótese, agora imagine, você passando por uma dificuldade muito grande em sua vida e essa pessoa, que você pensou neste instante, ela foi morar lá na Amazônia. Você passando uma grande dificuldade e a pessoa te deixa e vai morar lá na Amazônia? Faz alguma diferença para você? A pessoa que você pensou, no seu coração, que você ama, que é importante para você, você passando grande dificuldade, a pessoa te abandona, faz alguma diferença para você? Deve fazer, claro que sim.

O Evangelho está nos fazendo perceber algo muito interessante, porque João Batista batizou Jesus, João Batista falou bem de Jesus. João disse: ‘Olha, é o Cordeiro de Deus’(Jo 1, 29). Além disso, João Batista é o que de Jesus? Qual o grau de parentesco dele? Ele é primo (Lc 1, 36). Diz ali que o primo de Jesus tinha feito tantas coisas boas para Jesus e quando ele foi preso, Jesus foi para outro lugar. Então nós não pensaríamos assim: ‘Mas agora que eu estou passando por essa dificuldade, essa pessoa me larga e vai para outro lugar?’ João Batista tantas coisas fez e agora Jesus larga e vai para outro lugar? Por que Jesus não foi lá, nem fazer uma visitinha para João? Jesus será que não fica agradecido por aquilo que João fez por ele?

O que o evangelista está nos fazendo refletir? Mergulhar no Amor de Deus não é a pessoa se sentir prisioneira de Deus e muito menos a pessoa se sentir devedora para com Deus. Mergulhar no Amor de Deus é a pessoa experimentar a verdadeira liberdade. Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum. Quem que morava em Nazaré? Nós cantamos: “Maria de Nazaré…” Será que Jesus abandonou sua mãe? ‘Não quero saber mais de você, vou viver o Plano de Deus’. Não, não é isso. Jesus vai fazendo compreender: MERGULHAR NO AMOR DE DEUS É EXPERIMENTAR ESTA GRANDE LIBERDADE.

‘Brilha esta grande luz para aquele povo que andava nas trevas’ (Mateus 4, 16). O evangelista quer justamente nos fazer refletir que há aprisionamentos que são muito piores do que as cadeias. Por quê? Libertar um preso, porém, será que quem está lá na cadeia quer ficar livre? Sim, é lógico que quer. Mas e aqueles que acham que estão livres, mas tem cadeias interiores e exteriores, será que eles querem ser livres? Será que as pessoas que estão em prisões interiores, será que essas pessoas querem ser verdadeiramente livres? Será que elas têm mentalidade madura, ou seja, será que nós temos consciência desses aprisionamentos que vamos arranjando para o nosso interior e vida?

Jesus, ao passar de Nazaré para Cafarnaum, demonstra que existem cadeias muito piores, que não são feitas em grades de aço, de muros, que obrigam as pessoas a ficarem em um lugar específico como em um castigo, mas de relações que aprisionam e que de fato sufocam as pessoas. Portanto, Jesus vai anunciar a conversão, dizendo: ‘Convertei-vos, crede no Evangelho, O Reino de Deus está próximo’ (Mateus 4, 17). O que é a “Conversão” em nosso pensar e opinião? O Evangelho escrito no grego tem a palavra “metanoeite” originado em “metanoein”, ou seja, “metanoia”, esta que significa mudança profunda da mentalidade que atinge o modo de agir. A força da expressão que Jesus utiliza dá o tom de seu turno, João cumpre sua missão e Jesus acende a luz deste novo tempo e vida. A vida cristã não pode acontecer sem essa mudança sincera que é a conversão profunda, esta que se verifica nas intenções e refletem nas atitudes.

O amor humano, sem o Amor de Deus, ao invés de levar a pessoa a experimentar uma grande liberdade, o amor humano, sem o Amor de Deus, vai sufocando as pessoas. Começa com a mãozinha na cintura: ‘Oh, meu bem!’ Aí já passa com a mãozinha no ombro: ‘Oh, meu bem!’ Aí depois já chega na garganta: ‘OH, MEU BEM!’ Esse é o amor humano, sem o Amor de Deus. E vai levando justamente as pessoas a viver essa dimensão do aprisionamento. A pessoa diz: ‘Deus fez algo para mim, então glória a Deus, sou devedor de Deus para o resto da vida.’ E aí a pessoa faz a mesma coisa com as outras pessoas. ‘Olha, você está me devendo.’ ‘É mesmo?!’ ‘Não estou lembrando que eu estou te devendo.’ ‘Você não lembra, aquele dia que eu te ofereci um copo de água?’ ‘Você não se lembra disto?’ ‘Ah, então eu vou dar um jeito de pagar.’ ‘Como é que eu vou pagar isso?’ ‘O que eu estou te devendo depois que você me deu aquele copo de água?’ ‘É facílimo você me pagar, é só você me dar sua alma!’ Por causa do copo de água. ‘E eu vou jogar isso na sua cara, todas as vezes que eu tiver oportunidade, eu fiz isso para você.’ Então esse aprisionamento é terrível. As pessoas acham que estão na luz de relações claras, mas essa dimensão aprisiona.

Jesus nos vai introduzindo nessa ação, quem aceita o Evangelho, vai se converter ao Amor de Deus, a pessoa vai experimentar essa vida totalmente livre, totalmente abençoada, essa vida que vai inspirando a pessoa a ter essa disposição na sua existência. Que a pessoa não faça de sua relação com Deus aprisionamento. ‘Oh, Deus, Você está me devendo, lembra, eu acendi aquela vela?’

O mergulho no Amor de Deus, a vivência do Evangelho, vai fazendo a pessoa experimentar essa grande liberdade. Por isso o chamado de Jesus é forte, o chamado de Jesus não é porque simplesmente falou: ‘SEGUE-ME’ (Mateus 4, 19), e aqueles homens já deixaram tudo’. Por quê? Alguém poderia pensar: ‘Mas por que eu não quero seguir Jesus?’ ‘Jesus não falou ainda na minha vida?’ ‘Ah, Deus não falou comigo.’ ‘Deus ainda não me chamou.’ De forma alguma. Por que a Palavra de Jesus é forte? POR CAUSA DO SEU TESTEMUNHO. O que prendeu Jesus? O que de fato tirou a liberdade de Jesus? Esse trecho que nós ouvimos do Evangelho segue justamente o restante das tentações. E nenhuma tentação Jesus deixou-se prender. Em que situação da vida nós vivemos com dificuldade? Jesus ficou com dificuldade com Maria e José? Jesus: ‘Ah, não, agora eu tenho que fazer tudo que vocês querem, porque Maria é minha mãe e José é meu pai.’  Foi assim no Templo? Não. Jesus ficou devendo alguma coisa para quem, por exemplo, o chamava para comer em sua casa? Não, de forma alguma. A morte prendeu Jesus?  Não. Não é que a Palavra de Jesus é fraca para nós hoje, não é isso. É que precisamos vencer essas trevas (Mt 4, 12) e essas redes de relações estragadas, estas que Simão e André, Tiago e João usam, mas que não estão levando a vida livre.

Importantíssimo é olharmos essas “redes” em sentido das teias ou malhas das relações, Mateus usa para rede, no v.18, “amphiblēstron”, é uma rede de arrasto, conhecemos por “tarrafa”, lançada aberta na superfície e vai se fechando até chegar ao fundo, não dando mais condições dos peixes escaparem de suas malhas. Ainda sobre as redes, no v. 21, o termo “consertando as redes” é “katartizontas” e que nos remete a “katharsis”, a “Catarse” é um termo que se refere ao trabalho psicológico de purificação das memórias relacionais, trabalho que tem seus inícios com Josef Breuer, ele foi um médico e fisiologista austríaco (séc. XIX). Esta é força que está no chamado livre de Jesus para aqueles homens em seu tempo e a cada um de nós em nosso tempo, nos deixar iluminar por essa vida livre de Cristo, para que cheios de liberdade ajudemos as pessoas que amamos e os que se relacionam conosco a terem, não dependências negativas e relações sufocantes consigo, com outros, com as coisas, sobretudo com o Plano de Deus (Mt 4,17), ainda mais é preciso retirar as memórias negativas do Plano de Deus, muitos têm ideias erradas da paternidade de Deus. Deus nos quer pessoas autênticas e que tenham compaixão dos outros, levando-lhes à libertação.

Jesus foi uma pessoa imensamente livre, sem utilizar-se de poderes extraordinários. Nas relações que viveu, nenhuma relação prendeu Jesus. E por que todas as pessoas que Jesus libertava, essas pessoas lhe seguiam? Justamente porque Jesus as libertava e as deixava livres. ‘Vá em paz’! A pessoa quando vive esse mergulho no Amor de Deus, vai libertando as outras pessoas. Por isso as pessoas, de fato, não se distanciam das outras. Porque verdadeiramente aquela pessoa faz a outra sentir a liberdade.

Nós somos convidados a verificar essa disposição na nossa existência, no cotidiano deste “tempo comum”. Nós aceitamos o Evangelho de Jesus? Porque quem aceita o Evangelho de Jesus, essa pessoa experimenta essa grande liberdade. O Amor de Deus liberta. Alguém pode dizer: ‘Olha, eu vou te largar.’ Outro que não conhece o amor libertador em Jesus responde: ‘Não, pelo amor de Deus não me largue.’ Entretanto, quem é livre em Jesus diz: ‘Você quer que eu pague a passagem, quer que chame o táxi para você ir?’ Rsrs… Porque o Amor de e em Deus não prende.

Jesus chama os pescadores? Porque os pescadores usam redes. E Jesus diz: ‘De agora em diante vocês vão ser pescadores de homens, ou seja, de pessoas’ (Mateus 4, 19). O pescador ele lança a rede, ele prende o peixe e ele mata o peixe. E Jesus chama a ser pescador de homens no sentido de quê? De que a pessoa vai viver a liberdade e ela não vai prender as outras, mas ela vai libertar as outras pessoas. Isto é ser pescador, pescadora de pessoas.

Portanto, caros irmãos e irmãs, tenhamos com coragem e clareza a luz do chamado de Jesus, ouçamos o chamado cotidiano de Jesus para nossa existência ser realizada, ser plena. Essa é a proposta do Reino de Deus. “Vocatus atque non vocatus Deus aderit”  – ‘Invocado ou não Deus está presente’ – esta frase está gravada na entrada da casa de Carl G Jung, que foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço (séc. XIX). Jesus te chama a ser livre e lhe concede a graça tão necessária de ajudar a libertar tantos outros necessitados. Olhemos o nosso tempo quantos estão “urgenciados” de libertação, crescem o número dos depressivos, pessoas antes com imensas listas de amizades nos aplicativos sociais, agora cada vez mais sem saber se relacionar com seus próprios familiares, quantos tão aprisionados que buscam se cortar em seus corpos e tantos cortam a própria malha da vida no suicídio. Escute o Cristo que te chama, seja livre e ajude Jesus a pescar. Ajude Jesus a tirar do mar da morte, Ajude Jesus a salvar. Amém.

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