Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 4º Domingo da Quaresma

Só não vê bem quem não quer o bem.
Homilia do 4º Domingo da Quaresma – Ano A
Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia.

Caros irmãos e irmãs em Cristo, quanta maravilha é o tempo quaresmal, extremamente fecundo e reluzente de beleza. O Quarto Domingo litúrgico quaresmal recebe um título de “Domingo Laetare” – “Domingo da Alegria”, expressão obtida pela antífona de entrada (“Antíphōna” é um “som que se repete”, portanto é um refrão musical que atualiza o que se irá rezar) para esta celebração, “Laetare Jerusalem: et conventum facite omnes qui diligitis eam: gaudete cum lætitia, qui in tristitia fuistis: ut exsultetis, et satiemini ab uberibus consolationis vestrae” – “Alegra-te, Jerusalém: reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações”.

Segundo os estudiosos, neste domingo se trocavam as alfaias de cor mais escura para as de tom mais suave, como a cor rosa, um tom popular da vitória da primavera sobre o inverno naquela região, o que também recordava uma tradição em que o PAPA carregava uma rosa de ouro, percorrendo da Basílica do Latrão até a Basílica da Santa Cruz em Jerusalém, uma das sete principais igrejas de Roma, onde fazia uma prédica, celebrava a missa e retornava com a rosa em mão, destinando a algum lugar como sinal de apreço. A cor rosa nos faz pensar, não que o roxo quaresmal perdeu sua força, mas pela força da festa pascal que se aproxima, o roxo começa a brilhar de alegria. Quanta beleza a santa liturgia dignifica para que nós nos sintamos detalhados pelo amor de Deus Pai.

O texto deste Domingo Litúrgico vem de João, do capítulo 9, nos versículos de 1- 41. Jesus continua seu caminho de equilibrar as vidas pelo Plano de Deus, diz o texto que Jesus fitou um cego de nascença (Jo 9,1-2). Cristo, mesmo que não o vejamos, Ele, Senhor, nos esquadrinha, um olhar de quem ama e contempla. Todavia, o que ver de quem não vê e nem percebe à sua volta? Na pergunta dos discípulos aprofunda-nos mais a questão, eles olham pela situação aparente do que falta e segundo a tradição, no Ex 20,5, a situação de um mal de nascença era advinda de um erro feito por alguém, até mesmo do passado. Ao contrário, Jesus expõe, o que falta, não é o que o cego não tem, mas o que pode ser oferecido a ele. Esse é o olhar Divino, o olhar humano, mesmo enxergando o presente, corre o risco de avaliá-lo por uma ideia negativa passada, o olhar do Cristo não procura para si, quanto maior a falta, maior espaço para a graça de Deus ser manifestada.

“Vem a noite e ninguém pode trabalhar” (Jo 9, 4), é preciso aproveitar o tempo, é preciso aproveitar a oportunidade para ser o que Deus te fez pelo batismo, assim exprime o Filho Único: “sou a luz do mundo” (Jo 9,5). Que extraordinário! A situação que era dramática e tinha tudo para afirmar um Deus “Juiz impiedoso” e que sadicamente se satisfaz em condenar, o olhar de Jesus direciona nossos olhos, não para o passado, mas para a glória de Deus, Pai amoroso, invisível diante dos que pensam enxergar o que veem. Nós vemos quem diante de nossos olhos? Nossos julgamentos ou nossas carências? Por que às vezes tantos desentendimentos entre pessoas de uma mesma nação, pessoas próximas e até mesmo pertencentes a “grupos de espiritualidade”? Somente dentro do Plano de Deus poderemos ver o que desagrada no outro como oportunidade agradável para fazer o melhor, caso contrário, aquilo que falta no outro ou não me interessa, se torna motivo de escárnio e de condenação. Quanto mais vês o que falta, mais tu podes do seu melhor preencher, aproveita a oportunidade de fazeres ver que tu és um bom cristão (ã) e manifestará a “Glória de Deus”. É bom até repetir: a vida de alguém é para manifestar a “Glória de Deus”! A sua vida, a minha e até a vida de quem se olha com olhos arregalados pelo lado. “Jesus viu um…”, eu preciso ver.
Já não bastasse o aparente contraditório, “cego condenado” para oportuna manifestação da “Glória de Deus”, Jesus não utiliza um óleo ou perfume caríssimo, mas Jesus pega barro, não uma argila medicinal conhecida, mas terra e seu cuspe, aqui há toda uma beleza teológica (Criação e Ruah). Todavia, naveguemos nesse olhar aparente e procuremos a necessidade de realmente enxergar, cego e mendigo, terra e cuspe, nada muito belo, mas na escuta à Palavra de Jesus, o que ninguém parece ver faz manifestar a “Glória de Deus”. O cego que não vê, mas como enviado obedece (Jo 9, 7) quem lhe enviou e nesse lugar de chegada, sem ninguém agora, vê. Diz Santo Agostinho: “Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido “enviado”, nenhum de nós teria sido “desviado” do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz, “Enviado”, foi batizado em Cristo”.

Onde está a “Glória de Deus”? Ver em um cego e mendigo mais que suas precisões? Na terra e no cuspe uma manifestação extraordinária? Ainda mais um pouco se desenvolve a limpeza do olhar e do entendimento. Notemos, “os vizinhos e os que costumavam ver o cego” – pois ele era mendigo – diziam: “Não é aquele que ficava pedindo esmola?” (Jo 9, 8) Aqui começa a despontar a “Glória de Deus”, aquele que era por suas faltas, agora é mais do que elas, é um homem, é pessoa. Belíssimo é como o evangelista vai desdobrando e limpando a lama dos olhos e do entendimento dos curiosos, devemos desejar sê-los. Quanto mais se interrogam sobre o cego, mas se pergunta sobre Jesus e assim pelo Plano de Deus.

Permitam-me um pecado, encurtar aqui as belezas do texto desta sagrada liturgia. É dramático o desfecho comunitário primário daquele homem, que tem a chance de ser como os seus, os fariseus diante de um que era cego e que agora vê e não deseja mais esmola, não querem enxergá-lo, como diz o adágio: “Pior cego é o que não quer ver” (Jo 24 – 34). Situação terrível, pessoas de fé e de religião, diante da graça de Deus, a veem como desgraça, antes a cegueira do homem lhes (judeus) era suporte de condição de vida e se sentiam bem, “Deus” julga e condena, mas agora que o homem não lhes reforça a culpa ou pecado, se sentem mal e afastados de Deus, ao se manifestar em quem não se ama. Que perigo e que pessoa perigosa se torna quem procura em Deus olhar por si mesmo e não em si mesmo procurar os olhos de Deus como o Cristo vê.

Contudo, aonde vai se manifestar a “Glória de Deus”? No versículo 34 diz que os judeus o “exabolon”, expressão grega que significa “exilar”, no sentido de “jogar fora”, como alguém ou coisa que não presta. Mas quando Jesus ficou sabendo que tinham jogado fora aquela pessoa, o próprio Jesus foi lá para “heurōn”, para “buscar”, no sentido de quem encontrou algo muito importante. A expressão grega nos faz lembrar o Arquimedes de Siracusa (287 a.C. – 212 a.C.) com sua expressão “Eureka”, que significa “encontrei” ou “descobri”. Que alegria (Laetare) de Jesus descobrir e encontrar nesta pessoa toda rejeitada, mas cheio de luz (“sou a luz do mundo” – Jo 9,5) e não se permite vencer de dúvidas, julgamentos e preconceitos. Jesus diz ao homem que “não presta”, mas é “tesouro”: “Tu acreditas no Filho do Homem?” (Jo, 9, 35).

Irmãos e irmãs, “olhai” com atenção nos ouvidos, não devia Jesus dizer àquele homem: eles todos vizinhos, amigos, parentes e seus irmãos de igreja te jogaram fora, mas eu aceito você como meu discípulo? O que acontece? Jesus pergunta se aquele homem aceita a ele mesmo, Jesus. Isso é esplêndido! O homem se prostrou diante de Jesus, afirmando que acreditou na pessoa dele, o reconheceu como mais que profeta, mas como o próprio Deus (Jo 9, 36 -38). “Eureka”, eis a “Glória de Deus”! A maravilha de Deus se manifesta em todas as belezas, mas a maior maravilha é que a criatura aceite e acolha seu Criador.

Vejamos que beleza aos olhos de Jesus é a pessoa, tanto que ele se enche de alegria e humildemente pede quase mais curvado que o homem que se prostrou diante dele. Deus nos mostra que é preciso lavar nossos olhos no Cristo, sobretudo, nós que dizemos sermos pessoas de fé e que jogamos pessoas fora porque não nos agradam ou por pensarem politicamente diferente de interesses particulares. Diz Jesus: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (Jo 9, 41). Isso é triste, mas esse não é o Domingo da tristeza, mas é o Domingo Laetare, porque o Plano de Deus vai além de quem usa das situações, das pessoas em manipulações e em vista de seus desejos temporais e mesquinhos.

Alegrai-vos irmãos e irmãs, sois olhados, desejados e valorizados em Cristo, aprendamos dele a aproveitar “o dia” (Jo 9,4) para fazermos as obras de quem nos enviou a este mundo. Investiguemos o bem que podemos fazer e nos tornaremos verdadeiros adoradores e templos da glória Divina. E o mal não habitará em nós. Dificilmente acharemos em algum semelhante algo de incurável, pois estaremos discipulados e provados que o Senhor nos vê em nossa verdade real e necessária.

O momento difícil em que vivemos da “Quarentena viral”, que deixa uma marca triste na história da humanidade atual, precisa ser olhada pelos olhos misericordiosos de Deus Pai. E Jesus nos vê e nos recorda que somos capazes, sem fazer aparente “nada”, ficando o necessário em nossas casas e famílias a ajudar Jesus salvar o mundo, pois o cristão, a cristã, a ninguém contamina com o mal do mundo, mas a todos contagia com o amor de Pai pelos seus filhos e filhas, todos nossos irmãos e irmãs.

Olhe com amor seus semelhantes e serás a casa da alegria que Cristo deseja encontrar.

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!