Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: 7º Domingo do Tempo Comum

Tudo inicia em Deus.
Homilia do 7º Domingo Comum
Pe Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, continuamos nesta alta Montanha com Jesus, ele que retira as vertigens das míopes visões de mundo, inconsciências promotoras de egoísmo, somos conduzidos às alturas da vida vocacionada à plenitude humana pela filiação divina, expressão do Reino dos Céus. Jesus continua aos discípulos e a nós fazer enxergar o Reinado de Deus no texto de Mateus 5, 38-48 desta santa liturgia.

Recordemos, de quem busca na memória do coração, o Reino de Deus não é um terreno geográfico em que tendo chovido somos obrigados a fazer o acero, o Reinado de Deus é a vida orientada por Deus, vida tão bela e plena que já parece o céu na terra. Por este Reino o cristão orienta sua vida, não como lei que obriga, mas como razão absoluta da prática de sua existência, fazendo a experiência da obediência como capacitação e potencialização dos anseios, vontades e sonhos humanos implantados pelo próprio Deus Criador no coração da pessoa.

Jesus já havia anunciado da importância da lei na sua inspiração e percepção para a realização humana, mas sem sua fonte originaria, Deus, a lei perde sua razão de ser, pois tanto a lei como a pessoa humana não são a totalidade, podem ter uma unidade, todavia é preciso que a luz certa incida sobre ambas, evitando perigo de existência sem sentido. A pessoa é vocacionada em sua realização humana, uma lei precisa ser da mesma forma uma vocação clara a realização e, não somente um empecilho de atitude.

Quando a lei se torna apenas um empecilho para algo, ela deixa de ser promotora do bem comum e elaboração da melhora consciente do conjunto, para tornar-se vingança direcionada.

A lei enquanto iluminada por Deus, explica Jesus, concede a consciência melhorada do conjunto social dentro do Plano de Deus, não pela constatação do mal a ser evitado, mas justamente como força de condução ao bem pessoal, este apoiado pelo conjunto que a vive, enquanto experiência de bem para toda a coletividade. É absolutamente infrutífera uma lei que somente deseja impedir uma pessoa de cometer sua expressividade e não conduza essa pessoa a perceber seu valor, enquanto ser em realização, auxiliado e respaldado por todo o conjunto do bem “nesta sociedade”. Portanto, quanto mais leis e normas de impedimento pessoal ou de divisão do conjunto coletivo, mais essa sociedade deixa de ser conjunto social harmônico e transmuta em sectária, pessoas rivalizadas, alcançando status do terror ditatorial, o que leva a morte tanto da lei como da própria pessoa como tentativa de resolução do caos legalista. A lei não eleva e a vida da pessoa perde seu pessoal sentido. Perigo do legalismo moralista, sociedade carregada de leis individualistas é claro anúncio da morte social.

Jesus, “luz do mundo”, exemplo de harmonia pessoal, social e transcendente, nos coloca no sentido alto das reais e maiores normas, para quem deseja a vida livre, feliz e plena. Diz o Senhor não se vinguem e deem a outra face (Mt 5, 38,39). Deus ao corrigir Caim pelo assassinato de seu irmão Abel, não lhe infringiu apenas um castigo pela não mais presença do irmão, na verdade deu-lhe a consciência da responsabilidade pelo valor da vida. Caim temeu que os desconhecidos lhe matassem, mas Deus o envia a viver da bondade dos não irmãos de sangue e de território e ainda Caim recebeu o amor de uma mulher desconhecida (Gn 4,9-17). A lei não pode ser somente punição, antes de tudo no meio da dor a lei é amor que responsabiliza.

Jesus recorda a “Lei de Talião” do latim “talio”, “talis” – tal, igual (Ex 21, 24-25), uma formulação contida no Chamado Código de Hammurabi, nos parágrafos 196 e 197, em 1700 antes de Cristo. Essa legislação queria corrigir a baliza da vingança, essa baseada no poder de quem fosse revidar uma violência ou contrapor-se numa disputa (Gn 4, 23-24). Jesus revela o tom alto da vida orientada por Deus Pai, é preciso “dispor a outra face”, ele não amplia dificuldades, mas eleva razões e compreensões, Que outro lado é esse? Será que Jesus cumpre o diz aos outros fazerem? Será que algum dia Jesus terá sofrido as injustiças que sofro eu? Será que algum dia Jesus tomou algum “tapa” na cara para me indicar isto como solução? Parece que sim! Em João 18, 23 Jesus toma, não um “tapa”, mas uma bofetada, o “tapa” é dado com a palma da mão e sinal de correção, a bofetada é dada com as costas da mão e é sinal claro de desprezo repulsivo. Jesus ao perguntar a razão de tal atitude perante sua fala nos aclara que dar a outra face, não quer ser sinônimo de pessoa subserviente ou boba, mas que oferecer a outra face é buscar o outro lado da razão. A razão que orienta a vida do filho e da filha de Deus, não é o mal que alguém pode fazer, nenhuma resposta conferida por um cristão é motivada e/ou causada em princípio pelo mal que existe em situação, ou mal que alguém cometa, o que motiva a vida, as ações e as reações dos filhos de Deus é seu Reinado de Deus Pai. A vida cristã é orientada por Deus, seus sentimentos, pensamentos e atitudes.

O que move a vida cristã não é o mal ou a ausência de algum bem, seja ele material ou moral (Mt 5, 40-42), o cristão não é provocado por fora, o cristão é motivado e vocacionado por dentro. À medida que a pessoa faz a opção pelas bem-aventuranças (Mt 5, 3ss), opção pela felicidade do Reino sua motivação é permanente para o bem maior, a vida plena. A referência da vida cristã é a filiação divina, “se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque Ele faz o sol e chuva vir sobre justos e injustos” (Mt 5,43-45). O agir cristão é a concretude na experiência da aceitação de Deus como Pai, por está razão o agir da pessoa, quem tem fé em Cristo, não é provocado pelo mal, não é condicionado pela carência alheia ou ainda convenção social de coletividade.

“Portanto, sede perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48), eis a razão de tudo na vida do cristão, na vida da cristã. Vejamos o que Jesus coloca diante de nossos sentidos e pensamentos, a altura da vida cristã está balizada pela vida e forma da conduta de Deus Pai. As outras pessoas podem até ajudar com seus acertos e falhas, sábio quem aprende com seus semelhantes, mas a pessoa humana antes de tudo é imagem e semelhança de Deus Pai e por isso seu desejo de justiça, lei e vida, não poderá ser outro que, ser semelhante ao Pai Celeste.

Não tenhamos medo ou vertigem desta Montanha sagrada das bem-aventuranças, deixemos nossas vidas serem regidas pelo mandamento de Cristo e que o Senhor reine como norma de orientação maior e absoluta em nossas ações/reações. Alcançaremos a verdadeira justiça, pois estaremos na lei da vida plena, nossa vida divinizada santifica e qualifica em bom tempero a social. Muitos querem “ser deuses” para punir outras pessoas, mas os filhos de Deus, não são o castigo que impedem as vidas alheias, é por terem encontrado a vida plena em Jesus que se tornam porta do céu aos semelhantes, oferecendo perdão, oferecendo pão e oferecendo a mão. Isto porque os filhos já são semelhantes ao Pai do céu. Amém.

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