Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: “Aceitas Jesus como Salvador?”

“Aceitas Jesus como Salvador, José?”
Por Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia 

Caros irmãos e irmãs, eis-nos às portas deste grande acontecimento, a celebração do nascimento do “Verbo Divino” feito carne (Jo 1, 14). Este acontecimento realmente só tem sentido se experimentado na própria carne, pensá-lo e racionalizá-lo por todas as hipóteses matemáticas e científicas possíveis, ainda sim será sempre menos do que aceitá-lo na carne, não que se dispense a reflexão absurdamente séria sobre o  comprometer-se ou não com essa nova vida. É o que está acontecendo sempre diante de nossos olhos na intimidade de Maria reflexiva e na extenuação de José, debruçado sobre sua aliança com Maria, como esposa, e de sua fidelidade ao Plano de Deus – homem justo (Mt 1, 19).

Assim a Santa Mãe Igreja nos coloca diante do 4º Domingo do Advento, onde até quem dorme vê anjos e dialoga com Deus. A realidade toda em vidas tomadas e encharcadas pela “Força Divina”.

Após um texto belíssimo em Mateus (1, 1-17), em forma de ladainha sobre paternidades e maternidades na história do povo de Deus, o autor nos conduz ao evento da encarnação de Jesus Cristo, aliança de pessoas reais, como os nomes antes tornados de respeito por suas vidas e respostas diante do Plano de Deus, é chegado o tempo e a hora de Maria e José também se comprometerem nesta linha sagrada da história da salvação. Isto que o autor sagrado, com muita delicadeza e segurança, começa a também colocar diante de quem deseja a salvação, sendo que para isso pensa em fazer aliança com Deus.

Como bem sabemos, celebrar o Natal do Senhor não é “faz de conta”, é uma aliança de vida e para a vida com Deus. Lembremos a aliança dos que se colocam na vivência do Sagrado Matrimônio, tudo se modifica em seus exteriores e principalmente em seus interiores, sua forma de pensar, sentir e agir se tornam “linkadas” a esta realidade assumida publicamente, pessoalmente e religiosamente.  Essa vida que faz um homem temente a Deus e de reconhecida fama em justiça (Mt 1, 19),  leva José à extenuação reflexiva.

O autor do texto coloca diante de nós a “Origem de Jesus” numa tonalidade de respeito encorajadora. Deus como que vai pedindo licença para levar a efeito a vocação humana em seu mais alto grau de realização. Há uma história de família já acontecendo (Mt 1,18) e Deus vai lhe fazendo ser ainda mais bela e grande. O que um casal religioso poderia esperar depois de suas próprias ações união é que Deus lhes abençoasse com a geração de um filho, todavia Deus já lhes concede, a Maria e José, a bênção e o fruto imensamente desejado, expressão de sua graça, o filho.

José está diante do início desta nova vida, estando noivo, então sua vida já está ligada à vida de Maria e os dois estão nesta primeira etapa do casamento judaico, com as novidades desta realidade humana, ele se depara ainda com a novidade agraciada pela “Força Divina”. O homem busca a grandeza das realidades de Deus, mas será mesmo estar pronto a recebê-las em sua vida concreta? Aqui temos a situação desnudada na pessoa de José, o texto o chama de “homem justo” (Mt 1, 19), no grego “dikaios”, que refere-se à pessoa de  caráter elevado. José é homem de um respeito sagrado com o humano e com o Divino, o que nos possibilita tomar sua atitude diante do fato da gravidez de Maria, realidade que o autor já deixou claro que Maria traz em si pela “Força Divina”, o filho, materialização do “sonho” do casal.

José “gela a espinha” (consagra a expressão popular: “E agora, José?”), homem de caráter e consciente do Plano de Deus não pode ser inconsequente, pesa sua vida, forças e tenta avaliar as consequências em sua existência. A graça de Deus não é pouca coisa e é para a vida toda. Avalia José, isto precisa ser lembrado, José não havia tomado decisão fechada e terminada sobre ir contra o Plano de Deus, José está avaliando e é como convém a toda pessoa de fé, principalmente quem se denomina cristão. O texto diz que José não quer denunciar Maria. É bom voltar ao texto original e rever a força da expressão que o autor utilizou para recuperar o seu sentido, pois ao traduzir uma palavra em outra língua, pode ser que a tradução não atinja o fato dentro de sua realidade expressiva, mas apenas crie uma vaga ideia. A denúncia que Mateus se refere está em “deigmatizó”, em grego, que se traduz em uma “exposição forte” diante de algo ou alguém. Acostumamos a pensar na fragilidade da mulher frente a uma sociedade patriarcal de cobrança firme pelos acertos e erros cometidos, os excessos negativos permanecem às vezes de forma mais visceral. Mas retomemos o caso do casal, José, homem elevado, Maria, mulher tomada pela “Força Divina”, uma nova vida a dois e a nova vida sendo gerada no ventre. De “espinha gelada” e “cabeça fervendo”, José avalia e reza, como um homem elevado corre o risco de expor Maria cheia de graça?

A exposição que faz José pensar e repensar nos parece ser, não tanto de expô-la às outras pessoas para um julgamento com os critérios de um marido traído, que pede justiça aos homens (Dt 22,20). José se vê como causa da exposição, “não querendo denunciá-la e pensa fazê-lo em segredo” (Mt 1, 19). José não quer ser a causa da exposição. Assim José não expõe Maria a ele, ou seja, ao contato com sua pessoa, mas ao fazer tal ato em segredo, o que o homem podia fazer escrevendo uma carta à mulher e sua família, desobrigando-a de casar-se com ele e deixando-a livre para casar-se com outro, José no seu segredo com Maria e com Deus expõe a si mesmo, expõe a sua pessoa para as avaliações e juízos da comunidade, mas não se torna causa de exposição de Maria à sua pessoa e aos outros.

Atitude realmente de homem, pessoa de caráter elevado, refletir sobre o que sua presença e atitudes podem incidir em outra pessoa. Algo que os cristãos gratamente podem manifestar, que influência minha presença pode transmitir aos que convivem comigo? Ainda mais neste tempo em que tudo se expõe nas redes sociais de si mesmo e das outras pessoas. O cristão é pessoa da interioridade consequente em primeira instância.

José extenuado e cruciado pela seriedade da vida e evitando a todo custo o “faz de conta”, que não convém a pessoas de fé, ao abraçar o Plano de Deus, recebe o auxílio celeste, consequência de seu coração orante. O Senhor lhe ilumina a vida, os projetos e “sonhos”. O sonho, isto que em meados dos anos de 1900 “Freud vai tratar como revelação do ser inconsciente e sua realidade existencial”, já as pessoas de fé tem pela Bíblia documentada, a razoabilidade da orientação de suas existências, o sonho é a forma que Mateus fornece para nos colocar diante do trabalho humano que recebe essa luz realmente como graça exclusiva de Deus (Salmo 127, 2).

O anjo, personagem que indica a presença do próprio Deus, traz a José razoabilidade desta realidade encharcada pela graça de Deus, José que receia expor Maria à sua pessoa, mesmo sendo ele por outros considerado, justo/elevado em seu caráter, reconhece sua pequenez de homem limitado, recebe do anjo os dizeres: “Não tenha fobia de receber Maria como esposa” (Mt 1, 20), a “fobia” é a conceituação de um medo exagerado, quase que irracional. Estamos sendo levados aos sentidos de José, esse homem que vai iluminando nossa humanidade, como a pessoa de fé deve se colocar diante do Plano de Deus e da aliança com esse Deus. Às vezes tentamos pensar o que é uma vida em Deus, o que se sentirá e como se deve comportar…? Eis-nos diante da situação e sua reação, experiência de fé sentida e expressada na “carne viva” de uma pessoa concreta.

“Aceitar Maria e como sua esposa” (Mt 1,20) é aceitar-se em sua vocação de homem de Deus, auxiliado pela “Força Divina”, reafirma o Anjo, “Ela concebeu do Espírito Santo”, como se o Anjo lhe dissesse: é compreensivo, devido a sua seriedade, José, com a vida e seu respeito, mas saiba que vocês dois tem a graça e força de Deus a colaborar convosco, como uma aliança entre fortes. Deus não exige mais que a força da pessoa e ainda lhe envia a sua “Força” que é Espírito Santo. Coragem para você, para mim e para todos que desejarem fazer a experiência do viver o Evangelho de Jesus.

Ainda sobre o texto algo muito interessante, José acordado, ou seja, de forma bem consciente, fez conforme o Anjo do Senhor lhe havia “mandado”, em momento algum houve uma ordem que obrigasse José a receber Maria em sua vida, todavia, Mateus coloca desta forma para indicar a nós, a disposição com que José recebe através de seu Matrimônio o Plano e a aliança com Deus. José assume como responsabilidade, dever aceito e como missão a ele confiada, não mais dúvida e fobia, agora certeza e coragem. Atitudes da vida cristã.

Esse tremendo relato da “origem da vida de Jesus”, como escreve Mateus em início de texto, nos chama a atenção para o início da vida nossa com e em Cristo. Não é possível receber a pessoa de Jesus se não for por inteiro e para vida toda, como um verdadeiro sacramento, a exemplo do Matrimônio. Aceitar Maria, é aceitar e fazer aliança com Deus na pessoa de Jesus, contando com a “Força Divina”, o Espírito Santo. Que isso nos ajude e nos anime para acordarmos e podermos celebrar o Natal do Senhor, Ele realmente melhora nossas vidas e nos tira dos males (Mt 1,21). Aceitar Jesus só é possível em “carne viva”, assim como Maria o aceita em sua carne, José coloca sua pele, carne e ossos à disposição deste Plano de Deus, nos fazendo lembrar do início da criação, quando Adão exclama ao aceitar Eva como sua esposa (Gn 2,23 “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne!”), que todos nós queiramos fazer essa verdadeira experiência de vida e para a vida toda, aceitar Jesus como e somente é possível sê-lo na própria carne. Nos garante o Anjo do Senhor: “Não tenhais medo/fobia!”.

Que a celebração de sua aliança com Deus, a celebração da Noite Santa do Natal do Senhor, te encontre acordado e com uma consciência agraciadamente corajosa, queira viver assim esse Natal, queira viver assim todos os dias essa aliança, pois Ele é “Emanuel”, “Deus Conosco!” O Natal está às portas, receba Cristo em sua carne, sua vida. Como aquele Anjo do Senhor, ajude todas as pessoas à sua volta, por seu testemunho de fé, a vencerem o medo e acolherem Jesus em suas vidas como Salvador. Amém!

Permitam-me uma observação pastoral, ir à missa do Natal (noite de 24), que não é a mesma liturgia da missa do dia 25, pode ser um pequeno sinal de que se está aceitando Jesus como Senhor e Salvador. É tempo de ser cristão(ã) na carne, entenderemos melhor o que é “O Verbo” também feito Carne. Santo Natal a todos!!!

Pe Joéds Castro

Padre diocesano de Uberlândia.

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