Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: “Alegrai-vos sempre no Senhor!”

“Alegrai-vos sempre no Senhor!” 
Por Pe. Joéds Castro 
Padre diocesano de Uberlândia 

Queridos irmãos e irmãs, a Santa Mãe Igreja nos convoca a celebrar e nos alegrar através da liturgia do 3º Domingo do Advento, este que tem um colorido diferente. O Missal Romano prescreve  que a cor dos paramentos seja o róseo (cf. IGMR 346 f), mas em “vista” de quê? Esta é a palavra certa, “vista”, e que nos dá a tonalidade, tanto do que está a se ver e se está a ouvir (Mt 11,4). A cor litúrgica desperta o sentido do olhar, levando o cérebro a analisar razões pelo pensar e isto é conjugado com a certeza e sentidos. O que ao fim essa liturgia nos está dispondo sentir em seu conjunto? A liturgia deste Domingo litúrgico está a comunicar e constatar pelos sinais evidentes para uma “grande alegria”, utilizando até mesmo um tema como marca e sinal para essa celebração. É Domingo “Gaudete”, porque a primeira palavra da antífona, nas antigas celebrações deste domingo, no Gradual Romano diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez vos digo, alegrai-vos” (Fp 4, 4). Do Latim: “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete!

Como convém a esse tempo novo do Ano Litúrgico, em vigilância atenciosa e contemplativa, ouçamos a voz de Jesus no Evangelho por Mateus 11, 2-11 e vejamos a “Grande Alegria” que se descortina.

João Batista está encarcerado (Lucas 3,20; 9,9) por sua firmeza em testemunhar o Plano de Deus, que para ser aceito, é inevitável a conversão e o abandono de todas as maldades, na gravidade de lavar-se por fora e deixar também o interior limpo para ser preenchido pelo Espírito Santo (Mt 3, 11). O Batista alerta: viver a fé não é “faz de conta” (Mt 3, 7-8), o que ainda mais nos ajuda a recordar que, para celebrar o Natal, aliança permanente de quem crê em Cristo, não se pode ser levado só no exterior das aparências, mas ainda valorizar a preparação e sinceridade interior. A prisão não fecha João e suas expectativas, tanto que em seus discípulos interroga a pessoa de Jesus: “És tu ou devemos esperar outro?” (Mt 11, 3) Sua questão é desconcertante, não fora o próprio João que testemunhou e apontou Jesus como o “Cordeiro que livrará o povo dos pecados” ( Jo 1, 29 e Mt 3,12 )? O evangelista nos põe a pensar em João Batista preso, confiante em Cristo, será que vale segui-lo?

A voz de Jesus, como onda sonora que se propaga, possibilita olhos, ouvidos, mentes e corações a se encherem de realidade. As palavras no grego, em que foram escritos os textos, nos ajudam a captar a frequência e potência que Jesus deu o tom. Responde Jesus, não em “xeque-mate”, não luz no final do túnel, mas novo mundo, vida e realidades novas, “Poreuthentes apangeilate”, “Ide relatar/anunciar” (Mt 11,4), Jesus responde a partir dos fatos, diz Ele: “Enchei vossos olhos, enchei vossos ouvidos, fazei um apanhado e relatai, carregai tudo isso e levai a João, todos esses acontecimentos, qual onda de choque, devem chegar a João Batista.”

A cela segura o corpo de João, mas não prende suas expectativas e sua vida depositada em confiança no Plano de Deus, agora chega o estrondoso relatório (“apangélô”/relato) a encher e não caber dentro das masmorras de Maqueronte (colina fortificada, situada na Jordânia, a 24 quilômetros ao sudeste da foz do rio Jordão), transborda para João o bem em tantas pessoas que fora derramado da pessoa de Jesus. Agora em João, homem que fez do deserto oásis e metrópole, não cabe tamanha alegria, porque “Gaudete” é “Grande alegria”, prenderam seu corpo, mas eis que sua vida teve e tem sentido, sua luta não foi inútil, o que João se propôs a viver é verdadeiramente vida realizada, a libertação clamada no deserto chegou a todos.

Nos antônimos expostos, “cegos recuperam a vista”, depois de “mortos ressuscitarem”, se coloca algo que aparentemente não haveria maior, no entanto, o evangelista expõe: “os pobres são evangelizados” (Mt 11,5), que surpresa! O antônimo de pobre é rico, não deveria a vida cinzenta dos pobres receber o colorido e brilho do ouro da vida dos ricos? A vida nova não é negação da existência, a vida nova trazida e derramada, comunicada pela pessoa de Jesus é preencher mais do que a riqueza da materialidade, o que a riqueza tenta amenizar, o Evangelho de Jesus cura, ratifica e sobretudo plenifica. Até mesmo os pobres são evangelizados, suas vidas são belas, suas vidas são abençoadas, o que antes só alguns podiam experimentar, Jesus possibilita a todos. João preso é justificado, é o homem mais livre “dos nascidos de mulher” (Mt 11, 11), os pobres não são excluídos, os pobres são abençoados, são livremente amados por Deus, não precisam se acorrentar a riquezas “concubinadas” – Herodes e Herodíade.

“Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” Decreta o próprio Jesus sobre a pessoa de João e que qualquer pessoa que empenhar sua vida no Plano de Deus, essa pessoa, ela sim, será abençoada, plenificada, ou seja, sua vida não será em vão, fará a experiência da verdade e da liberdade autêntica. Devido à autenticidade o próprio Jesus testemunha quem lhe havia tomado o testemunho, Jesus se torna a testemunha de João para todas as multidões, vai ajudar-lhes a compreender o que está diante de seus olhos, insiste o Mestre pelo verbo “Ver” (theásasthai  = um olhar pela aparência) para ajudar a discernir a realidade em si da aparência sem substrato.

Várias vezes questiona Jesus em retórica “alertiva”, “O que fostes ver?…”. Suas comparações são pontuais e cirúrgicas, pergunta: “No deserto se verá o caniço” (Mt 11,7)? Ora, o caniço é o talo do capim de junco que dá à beirada fresca dos rios. Aqui Jesus ressalta a firmeza de João e nos faz olhar para a devida firmeza de vida do cristão, esta que deve se diferir da maleabilidade do talo do capim, que se coloca sem atitude própria e consciente. Na região judaica essa expressão é comum, mas para nós nem tanto, todavia se buscar entender o que o Mestre está a dizer para nós, em nossas terras brasileiras, também temos algo que exemplifica muito bem a reflexão necessária, dizemos: “Tal pessoa não tem consistência em sua personalidade, parece “folha de bananeira”, para onde o vento manda, vai!” Jesus, por João Batista, acorda todos nós a olhar lá e nos ver cá, o cristão não será jamais livre e autêntico se não firmar sua postura ao que é correto, evitando se deixar levar pelos ventos do tempo presente em “moda”, das ideologias e contra valores do Evangelho do Reino.

Distingue Jesus, “fostes ver um homem com roupas finas no deserto, mas estes não frequentam outros lugares” (Mt11,8)? João não se reveste do poder dos homens e dos seus ambientes de “status”, João se reveste da graça de Deus, seu nome mesmo indica sua investidura e missão, significa “Deus é Misericórdia”. A pessoa do discípulo de Jesus autêntica e que abraça a vida na fé, se reveste da graça de Deus. O cristão vive pela força desta misericórdia, não se alia a conchavos de poderes partidarizados em controle e benefícios estreitados para alguns. O cristão, na autenticidade, se reveste da liberdade, importuna como as areias do deserto, que atingem ouvidos, olhos, boca e se alojam em certos lugares, exigindo o despir-se dos “status” da aparência, para ter o verdadeiro alívio. A autêntica liberdade e vida do Reino é beleza sem par, mas não tolera o desconforto da desfaçatez, mesmo que não esteja à disposição de olhos alheios.

Afirma Jesus e autentica, “Profeta e mais que profeta!”, “é meu mensageiro” (Mt 11,9). João, com sua entrega e firmeza de caráter, constitui o protótipo necessário para que Deus Pai possa no Filho, Jesus, configurar a pessoa autêntica e livre que fará a experiência da plenitude do Reino e da nova vida. É preciso o desejo forte de liberdade para si e para os demais, o desejo de liberdade só a si é a corrupção do bem em veneno, a verdadeira liberdade de uma pessoa não pode reduzir-se frente à liberdade alheia. Por que qual será o limite desta expressão, se não o poder de quem tem mais meios e força? O desejo de liberdade em si deve ansiar como em João, tão forte, que o vive em si, ajuda o povo todo, pessoas simples, alerta as classes nomenclaturadas de “víboras” e até deseja a liberdade da mais alta responsabilidade, Herodes.

É nesta terra fértil, aparente deserto, que se manifesta a grandeza de João (Mt 11, 11). O maior e menor no Evangelho não se reduz à medidas métricas ou “status” sociais, a grandeza e pequenez se refere à liberdade de ação e autenticidade de caráter. Portanto, João é “dos nascidos de mulher”, nas condições entre os esquemas do seu mundo, com suas concepções e prisões – recordamos que no início desta perícope de Mateus, capítulo 11, João aprisionado questiona – o mais livre e autêntico possível. Contudo, reverbera a voz do Mestre Jesus “o menor no Reino” é maior do que João. O discípulo autêntico de Cristo, em nosso tempo chamado de cristão (ã), é essa pessoa que não se deixa aprisionar pelos esquemas deste mundo, porque abraçou, como a Mãe Maria que abraçou no nascimento o Filho Jesus, a vida nova, o cristão acolhe no Natal e renova essa vida absoluta e plena, de todos e em todos os dias viver de modo autêntico e livre, sem se dobrar aos esquemas do mundo sem Deus.

Todos nós possamos fazer essa feliz experiência de “grande alegria” no decorrer deste novo Ano Litúrgico, viver na autenticidade de sermos mais que profetas, anunciadores de um futuro livre, mas testemunhas do presente em Cristo, ungidos pela misericórdia de Deus, viver longe dos cárceres do tempo hodierno, ajudando as pessoas de nosso convívio a ver, não pelas aparências que se deixam empoeirar pelos vícios que pretendem esconder as frustrações, encadeando suas reais melhoras humanas e semelhanças divinas.

Fazei a experiência de ser pessoa do Reino de Deus todos os dias deste novo ano que vai despontando, passo a passo não se intimide. O Natal seja o seu dia e todo dia renove sua aliança com Deus, acolha Jesus como seu Senhor, cresça com Jesus, cresça como filho (a) de Deus. Retome diariamente o Evangelho como proposta e luz para seu caminhar, orientação de seus melhores desejos e irás experimentar essa grandeza, se lhe impressiona a coragem de João, a respeite, mas não se intimide frente a grandeza de sua estatura de liberdade concedida pela graça do Reino de Deus. Seja livre em Cristo e ajude seus semelhantes, como João procurou ajudar, até mesmo os mais aparentemente presos nas falsas liberdades sem autenticidade. “Gaudete”, eu repito, “Alegrai-vos no Senhor!”

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