Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: Apresentação do Senhor

Apresentação do Senhor – Evangelho (Lucas 2, 22-40)
Homilia de Pe Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, esta celebração tem sua inspiração cronológica segundo o Evangelho de 2, 22, sendo conjugado com o texto do Levítico 12, 2-8, em que passados quarenta dias do Natal recorda ritos colocados a serem realizados, na lei mosaica, ritos de purificação da mulher que teve o parto e do resgate do filho primogênito. Todavia, essa festividade à medida que celebrada ao longo do tempo, vai trazendo à luz da verdade, não tão voltada ao passado de forma negativa, mas um presente de futuro esplendoroso. Esta festividade já era celebrada em Jerusalém por volta séc. IV, conforme relatos em diários de viagem de uma mulher de nome “Etéria”, que era uma escritora romana, autora do “Itinerarium”, no qual relata sua viagem em lugares sagrados do cristianismo.

Nestes tempos a ritualidade fortemente marcada pela ideia da purificação e quitação com Deus, no entanto, no tempo do PAPA São Sérgio (séc. VII), de origem oriental, a celebração recebe o nome de “Hipapántê”, palavra grega que significa “encontro”, retratando o encontro do Messias com seu povo, povo figurado nas pessoas destes anciãos. No século X, na Gália, para melhor expressar as palavras de Simeão, se introduz a bênção das velas, ou como dizemos aqui no Brasil, “Candeias”. Também é introduzido o belíssimo canto “Lumen ad revelationem gentium” – “Luz para iluminar as nações”. Firmou-se o sentido de Apresentação do Senhor, o que retirou o sentido penitencial purificatório da celebração, tanto que do rito da bênção das velas se adentra a Igreja e se acendem todas as demais luzes com o canto do “Glória a Deus nas alturas”.

Ao celebrarmos esta Solenidade da Apresentação de Jesus no Templo, coisas muito importantes são colocadas para nós. “Maria e José vão cumprir os preceitos; nós vemos esse casal que vai apresentar Jesus e depois nós vemos outro casal” (Lucas 2, 22-36). Diz o texto do Evangelho que “um casal de velhos”. Mas eles, tanto Simeão (Lucas 2, 28-32), como essa profetisa Ana (Lucas 2, 38), têm reações bem diferentes. Simeão, um homem “cheio do Espírito Santo” (Lucas 2, 25-27), mas velho. “A profetisa Ana, lá dos seus oitenta e quatro anos”, (Lucas 2, 36-37), então uma velhinha, ela também. Tanto Simeão como Ana, se enchem de alegria. “Simeão diz: ‘Agora, Senhor, podes deixar seu servo morrer em paz; porque meus olhos viram a salvação’ (Lucas 2, 29-30).” Ana, da mesma forma: “Começa a louvar, a glorificar a Deus” (Lucas 2, 38).

No entanto, nós não vemos Maria e José falarem ou cantarem. Diz o texto que “eles ficam só admirados” (Lucas 2, 33). Eles ficam admirados com o que o Simeão, a Ana, vão dizendo, vão afirmando da pessoa de Jesus. Deve nos chamar a atenção, que não basta praticar o rito, é preciso buscar, enxergar nesses ritos, a presença de Deus. Depois que Maria e José ofereceram o sacrifício, fizeram tudo direitinho conforme a Lei mandava, o texto não diz que eles ficaram felizes, o texto não diz que eles ficaram satisfeitos, o texto não diz que eles ficaram cheios da glória de Deus. Vejamos bem, Maria e José, eles têm Jesus, mas não parecem estar cheios da glória de Deus. E nós devemos justamente verificar isso de nossa parte.

Às vezes nós achamos que basta cumprir os ritos. Nós vamos ficando às vezes muito ESPECIALISTAS nos ritos religiosos, mas não sentimos a força do Espírito Santo e não nos enchemos da glória de Deus, do louvor de Deus. Nesse dia então somos convidados a verificar isso, Simeão, Ana, José, Maria, todos eles vão ao Templo. Mas um casal volta, cumprido os ritos, mas sem alegria. E um casal, por sentir a presença de Deus, está cheio da glória de Deus. O rito religioso não presta somente ao sentimento de alivio ou de orgulho, o rito religioso está para conectar a vida humana e a vida da graça de Deus em uma única história de salvação!

O evangelista faz, de maneira muito acertada, quando fala “do velho”, “da velha”, porque se imagina que um velho, uma velha, já não têm nenhuma alegria. Ao contrário, se pensa que os jovens é que estão cheios de alegria, porque podem realizar muitas obras. E o evangelista nos faz notar justamente o contrário. Está cheio de alegria, aquele, aquela, que se abre à graça de Deus. A COMUNIDADE, ELA DEVE SER JUSTAMENTE UM CENTRO DE ESPIRITUALIDADE, onde as pessoas, ao celebrarem os Sacramentos, celebrarem os ritos religiosos, as pessoas, ou seja, eu, você, todos nós, devemos nos encher da glória de Deus. Porque nós corremos o perigo, um perigo absurdo, “eu cumpri o rito, pronto, estou satisfeito, estou quite com Deus”.

Então esse sentimento às vezes, de satisfação, ele impede justamente o sentimento de plenificação de nossa parte. Porque o final do Evangelho diz: “Que o menino crescia em graça, em sabedoria, estatura, diante de Deus e diante dos homens”. (Lucas 2, 40) Nós precisamos, cada vez mais, esse desenvolvimento. Nós precisamos, cada vez mais, de um crescimento, de um “afervoramento”, de um aumento dessa alegria, de tal forma que, quanto mais velhos nós vamos ficando, maior a alegria da vida em Deus se deve verificar na pessoa de fé.

À medida que o cristão, ele de fato, vai adentrando na graça, na glória de Deus, à medida que o tempo passa, a felicidade vai sendo superior. A felicidade de um cristão mais velho, de um cristão mais maduro na fé, ela deve ser superior à felicidade de um cristão mais jovem na fé. Nós somos chamados a verificar isso, nós somos chamados a mergulhar nesta ação amorosa de Deus.

A comunidade deve ser justamente o lugar deste mergulho na espiritualidade. A celebração dos Sacramentos, na vida paroquial, deve nos colocar diante da graça salvadora de Deus. Cada Sacramento que se celebra, a pessoa deve se plenificar. Mas é preciso, antes de tudo, esse desejo de ver a graça de Deus, o desejo de ver a graça de Deus. Muitas vão às igrejas para fazer as celebrações, mas não têm desejo de ver a graça, de fato, de Deus, de vasculhar. O rito aponta para o mistério que nele se expressa, todo voltado para a graça de Deus.

Hoje em dia, estamos tão especialistas em rito, que a gente diz: “Um terço não pode durar mais do que vinte minutos”. “Uma missa não pode durar mais do que cinquenta minutos”. “Um casamento não pode durar mais do que quarenta minutos”. NÓS FICAMOS TÃO ESPECIALISTAS DOS RITOS, QUE NÓS NÃO TEMOS A PLENIFICAÇÃO, PERDEMOS A PLENIFICAÇÃO DA GLORIFICAÇÃO.

Fazemos ritos e voltamos às vezes, para casa, mais infelizes. “Ah, eu não vou à missa, eu não vou ao terço, porque eu estou indo para pecar”. Por quê? O desejo é ver a graça de Deus ou o desejo é por outras coisas, ou são outras coisas que chamam a atenção do olhar? Nós padres percebemos como as pessoas desperdiçam os momentos valiosíssimos da Santa Missa! Às vezes está tendo ali a proclamação do Evangelho, a pessoa está olhando para o teto, está perdida no folheto ou quando está perto de uma porta, está olhando para fora. Às vezes na hora da consagração a pessoa está olhando para os pés, mexendo os dedinhos e não tem o desejo de ver a graça de Deus. Ou senão a pessoa passa o momento todo só olhando para si mesma, só pedindo coisa para si mesma, só falando de si mesma para Deus, o tempo inteiro, do início ao fim, a pessoa está preocupada só consigo mesma. O tempo inteiro: “Ah, eu não gostei daquilo”. “Ah, eu não fiquei satisfeita com aquilo”.

A igreja deixa de ser um centro de espiritualidade, do encontro da graça de Deus, do crescimento da fé, e a igreja passa a ser mais um lugar da minha insatisfação pessoal. Então é preciso de nossa parte o desejo profundo, inspirados nas palavras e atitudes do velho Simeão, “meus olhos viram a tua salvação” (Lc 2, 30). “Quero ver a graça de Deus, eu preciso ver a graça de Deus”. Essa dimensão do mergulhar na graça e a comunidade ela deve ser, insisto, esse centro da espiritualidade. Donde perceber esse desejo profundo de cada um fazer esta experiência marcante e, de fato, o desejo de participar. Muita gente ainda diz: “EU FUI ASSISTIR A MISSA”. MISSA NÃO SE ASSISTE. Antigamente, quando se celebrava a missa em latim, até se ouvia alguém falar isto, porque não entendia o rito e os dizeres. Mas nós somos chamados a uma participação ativa, uma participação intensa na nossa paróquia. Desejoso, desejosa, de experimentar esta infusão da graça de Deus. Esta infusão do Espírito Santo.

“O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.” Desejemos Cristo como centro de nossa existência, como disse Simeão: “Ele será a causa de queda como de reerguimento” (Lc 2, 34). Seja Cristo a causa de seu olhar, de seu buscar, de seu crescer. Não sejamos pessoas só cumpridoras de ritos, pessoas cumpridoras de escalas, procuremos crescer diante de Deus e diante do sermos mais humanizados. Ficaremos velhos, mas seremos os velhos mais felizes, realizados e plenificados, porque nossos olhos e corações se voltaram como disse a velha Ana, para a libertação de Deus. Amém.

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