Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: “Família, Projeto e Plano de Deus Pai”

“Família, Projeto e Plano de Deus Pai” 
Por Pe. Joéds Castro 
Padre diocesano de Uberlândia 

Caríssimos irmãos e irmãs, nossos sentidos foram tocados, ou seja, ao celebrarmos as festividades litúrgicas da Noite Santa do nascimento de Jesus e o dia da confirmação desta alegria recebida, que é a missa do Dia do Natal, podemos afirmar com a riqueza de quem fez a experiência do rito, como expressão do contato com o Sagrado, que os sentimentos e a razão receberam novos impulsos para a vida hodierna.

Quem celebrou estas liturgias, como diz o profeta Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”(Is 9,1), terá sido tomado por experiência de fé. Das primeiras situações que dão ápice aos entendimentos formuladores da realidade celebrada, está a variação da luz dentro da igreja, atitude que realmente nos obriga a ver tudo e principalmente a verdade real, Jesus é a luz do mundo, sua presença é capaz de trazer o ver e compreender na totalidade da história de Deus, no plano de seu amor e plenitude vocacional. Cristo nos faz ver, a olhos nus, o amor e a confiança de Deus Pai nos seres humanos e o que o ser humano como todas as pessoas que assumiram em suas vidas íntimas e públicas o Plano de Deus – João Batista, Maria, José…, sua luz abre nossos olhos, não retrai nossas pupilas da fé, tudo é tomado de sentido, razão e certeza. Eis a vida de toda pessoa no Plano de Deus.

Com as pupilas da fé iluminadas, nossos olhos são enternecidos e os corações são aquecidos por essa realidade que se estampa diante do mundo, não só de nós, mas uma referência antiga, retomada e fundamental para todos desde o início da criação, a Família. Ao olhar Cristo agora é impossível sem o ver às mãos de Maria e braços de José, como não existem membros sem corpo, agora vemos essas pessoas que expressam a sacralidade da união de pessoas, dentro da mais alta relação de confiança existente. Podemos, dizemos e como não fazê-lo, pois o Filho de Deus ali está e é visível, Sagrada Família, Jesus, Maria e José. Não há uma união contratual puramente e fria, isto que em nossos tempos foi se convencionando pela marca de maus exemplos de relações e situações ameaçadoras à dignidade, devido a vínculos desprovidos de substância, seja de caráter ou pela ignorância do ato em si. A presença de Jesus consagra e confirma à santificação, o que é para ser santa, a união das pessoas é chamada a ser, assim como essa Família, Sagrada! É esta união que temos diante de nossos olhos, pensamentos e sentidos.

 Hoje temos muitas leis, preceitos, normas e recursos para o condicionamento da proximidade, das e entre as pessoas, isto que se impõe muito mais pela certeza ou medo da desunião, do que para auxiliar em sua sadia manutenção de superação dos comuns desafios. Tendo em vista as situações experienciadas em casos variados, pode se dizer que a “sociedade” encontrou formas de remendar o que a união não pode mais costurar. Todavia, são remendos de partes que não se juntam mais, o que é triste, em muitos casos, quando não houver morte, uma dor emendada em corpos e vidas separadas em rispidez. É preciso respeitar essas histórias, não se pode dizer: ‘isso não importa ou não deve ser levado em conta.’ Ora, ora, como retirar da história, ela mesma? Ela não existiria. É preciso muita atenção, porque desejando atenuar sentimentos, pode-se cometer grandes confusões e desprestigiar, insignificando a pessoa ou pessoas, que foram traumatizadas pelos fatos vividos a duras penas. Isto também interessa a Deus, já diz a escritura: “Deus não faz distinção” (At 10, 34), ou seja, por todos Deus se interessa e se estas pessoas procuraram por tantos meios se respeitarem, todos devem respeitar suas condições e jamais “fazer de conta” que nada lhes aconteceu, ou ainda, que isso não significou nada diante de Deus e seu Plano Salvador para essas pessoas. Portanto, é muito justo não confundir acolhimento por desprezo histórico, o acolhimento deve compreender a realidade histórica das pessoas e as reais ofertas que nesta condição se possa demandar, porque não é isto que Cristo está iluminando com sua presença ou escamoteando. O menino Jesus ilumina a família como de fato é chamada a ser, união consciente entre as pessoas que partilham convicções mais profundas de cuidado e seríssimas, estas que jamais nenhum contrato, por força legal humana, poderá exprimir. Já em saída, não há lei humana que tenha meios de garantir o amor entre pessoas tão diferentes, como o homem é diferente da mulher e vice-versa. Também a vontade, e/ou moção instintiva humana, por si, não alcança tamanha envergadura desta união sagrada.

Jesus, com sua Epifania, nos faz recobrar o ato criador do Pai, que o livro do Gênesis retrata da criação de tudo, inclusive do ser humano (Gn 1 e 2), a força de seu Espírito insuflado na criatura e fazendo-lhe semelhança, o Divino que se faz semelhante na pessoa criada. Ora, é Deus ali neste Menino, é uma criança, mas é o Filho de Deus e mais, é o Salvador (Mt 1,21). Quis Deus que, por meio da família, isto se desse. Muito nos ilumina a vontade forte no coração humano, em que toda pessoa independente de sua etnia, ou tempo da história da humanidade, se interessa em formar família, realmente, um emprego com bom salário é almejado e outras coisas boas e úteis deste mundo também causam esforço de qualquer pessoa, mas o viver como família tem seu grau em nível diferenciado no pontuar um estado a mais na existência dos seres humanos.

Com as “pupilas dilatadas” com o que está vindo à luz com o Natal de Cristo, temos que arregalar ainda mais os olhos e a mente, pois tendo vindo “reis de fora” (Mt 2, 1-12), o que reina quer matar o Menino (Mt 2, 13). Assombroso anúncio feito pelo anjo de Deus a São José, este José que realmente traz em si as marcas de um homem elevado, está sempre em sintonia com Deus, o que nos prova o valor da vida orante e permanente intimidade com Deus, experiência que todo cristão é chamado a cultivar. A expressão utilizada é belíssima: “paralabe tò paidíon kaì tên mêtéra autoû”, “Toma o menino e tua mãe” (v 13). A expressão “paralabe” coloca-nos diante daquele “não ter phobia” que ouvimos no 4º Domingo do Advento (Mt 1, 20). Mais uma vez José é motivado, mas agora um homem que não teme Deus, mas um homem maduro na fé em Deus e consciente da fraqueza dos homens, principalmente poderosos pelo “status” (Mt 2,3), que se sentem ameaçados pelos que estão nos úteros ou crianças recém-nascidas, o pai São José é chamado pelo anjo ao ato sagrado de “paralambánô”, assumir nos braços o Menino Jesus e a Mãe, Maria, não como carga, mas como um presente que se abraça e encosta ao coração por fora, o que já vai dentro dele, este é o “tomar” do pai José. Este é o tomar consciente à vocação familiar, é trazer no abraço o que se deixou entrar no coração.

Ao longo de todo o texto desta liturgia, que se deve meditar com calma, espírito de oração e coragem de obediência, terá essa atitude do pai São José, sua intimidade com Deus – Mt 2, 13; 19 e 22 – pela via da oração, sua corajosa obediência e o alcance de toda a graça que a presença de Cristo nesta Sagrada Família produz. Perceba-se que o Pai São José “toma” a Mãe de Jesus, o que é algo também belíssimo de se refletir, em que Maria é sempre tida como em referência a Jesus, assim como Jesus é a referência para José em relação à pessoa de Maria, ou seja, na família a referência é sempre o Plano de Deus, pois é este Plano que coloca a grandeza do sentido do ser família, sem Cristo a família perde sua sacralidade, a família terá importância, mas reduzida e impedida de seu desabrochar-se na graça maior, se buscará “graças comuns” por meio de agrados e benefícios, mas se estes faltarem, a família que não era centro em Deus, perde o remendo do que não se costura. Entretanto, voltemos aos lugares que o pai São José leva essa família, Egito (Mt 2, 13), Galileia, o Egito foi a terra da escravidão, mas com Cristo se torna o lugar da segurança, a região da Galileia, em específico o povoado de Nazaré, é terra sem prestígio e de revolta, mas com Jesus se torna ambiente de paz e obediência.

Grandes realidades para a vida cristã, experiência de oração, escuta de Deus, importância entre as pessoas, obediência ao Plano de Deus e campo da graça que se abraça, trazendo perto do peito o que está dentro do coração. Essa Família Sagrada nos ensina como e o que nossas famílias são chamadas a ser e experimentar, nossas famílias são chamadas a serem Sagradas também. Sejamos pessoas de diálogo com Deus, para descobrirmos o que é ser família, ao sermos pessoas de oração, seremos pessoas de diálogo profundo também com as pessoas de nossas casas e todo lugar ou situação serão ambientes de salvação. A família só pode alcançar a totalidade do experimentar nas entranhas o amor familiar (Gn 2,23), que não se prende por coisas, por locais ou “status”, caso se deixe conduzir, no sentido de orientar mesmo, como um “GPS” pela graça amorosa do Pai Deus.

As famílias não são o lugar da “phobia”, da desatenção, da falta de diálogo, do abandono e da violência, nas famílias muito possivelmente devem, talvez, antes de ouvir esse ou aquele, se deve ouvir Deus. Caso alguém grite, o outro diga: ‘Você gritou, mas eu vou ouvir Deus em primeiro.’ Procure esse texto da liturgia de hoje, sempre que tiveres questões a serem resolvidas; medite, reze, contemple, convide quem gritou ou se desespera em sua casa para ouvir, ler juntos e encontrareis anjos uns na vida dos outros, encontrareis o Menino Jesus todos os dias a sacralizar vossas famílias e casas. Não se entristeçam com as dificuldades, sejam conscientes dos problemas “Herodianos” do tempo presente, mas recordais: a família, antes de ser desejo e vontade de uma pessoa, a família é Projeto de Deus. Seja como estiver a tua família, permita que Cristo esteja como centro e importância desta relação uns para com os outros, assim estareis protegidos, amparados e libertos de todas as ciladas e perigos que este mundo pode impor.

Viva a Sagrada Família de Nazaré! Viva a tua família em Jesus, Maria e José! Sempre que possível renove os votos de seu matrimônio, procure ir com alegria e conjuntamente, em família, às missas. Reze em família, escute Deus, tenham satisfação e tempo para se ouvirem mutuamente, principalmente entre os abraços e sussurros. Procure respeitar as famílias dos outros, não seja uma tentação às dificuldades de outras famílias e independente de como esteja sua família, até mesmo afastado dela, recorde sempre da Família de Nazaré e sinta-se amado por Jesus, se coloque nos braços de São José, a Mãe Maria te toma no colo e Deus Pai lhe diz: ‘Tu continuas meu filho(a) e sua família é minha também.’ Onde está Jesus, sempre será Sagrada Família. Amém!!!

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