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REFLEXÃO DOMINICAL: JESUS, INCOMPREENDIDO E REJEITADO, POR PADRE EDUARDO CALIL

DOMINGO DE RAMOS

JESUS, INCOMPREENDIDO E REJEITADO

PE. EDUARDO CÉSAR RODRIGUES CALIL

Com que espírito?

Iniciamos a Semana Santa, ou Semana Maior, com o Domingo de Ramos. Para nós, cristãos, é uma semana intensa de oração em que somos convidados a acompanhar os momentos finais da vida e missão de Jesus; sua entrega, morte e ressurreição. Mas e Jesus, como ele teria vivido a semana derradeira de sua vida? Com que autoconsciência ele terá experimentado o festim do povo, com sua entrada em Jerusalém, seguido da resistência de uma turba organizada e da trama macabra que armaram para interromper sua vida? Com que espírito terá vivido seus momentos de agonia e dor?

A própria Escritura pode nos ajudar a responder isso: Jesus viveu sua semana derradeira como um servo sofredor (Is 50,4-7), unindo sua vida e destino à vida e destino dos profetas, servos de Deus, sempre rejeitados. Ele encarará sua morte, entendendo-se como o Filho do Dono da Vinha, que será morto pela inveja dos arrendatários; ele se compreenderá como uma pedra rejeitada pelos construtores (Mt 21,33-46). E ao enfrentar sua dor e agonia, Jesus manterá seu espírito confiante. Mesmo ao experimentar o abandono, é a Deus que rezará, perseverando contra toda esperança (Mt 27,46).

Nesse Domingo de Ramos, refletimos dois evangelhos e o movimento incômodo de um para o outro: a acolhida de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11), entrada essa que explicita os germes da rejeição de Jesus e o evangelho de sua Paixão (Mt 26, 14 – 27,66) que mostra, de forma radical, como Jesus é recusado, sobretudo pela religião. Mesmo assim, Deus recebe sua vida e, a partir dela, faz novas todas as coisas (Ap 21,5).

Uma entrada gloriosa?

A entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11) mostra o tipo de messias que ele é. Ele não vem para libertar Israel com a força das armas, como queria o movimento zelota, ou como faziam as rebeliões messiânicas da Palestina do século I. Ele não vem também com a força de seus anjos, como desejavam os movimentos apocalípticos, fundamentados nos escritos de Daniel. Ele não chega, portanto, abrindo o céu e fazendo incidir o dia do juízo. Ele não chega como previam os movimentos messiânicos reais, ou até mesmo alguns movimentos de messianismo profético: como alguém que quer ser rei e fazer acontecer o reino na história, como se fora um acontecimento do século; não simplesmente. Ele chega montado numa jumenta e num jumentinho.

Jesus não é, portanto, um messias à moda de nenhum messianismo de rebelião e revolução armada ou violenta. Jesus é um messias da paz. Mas nem por isso, um messias desconhecido. Em Marcos, o messianismo é uma novidade que brota de um segredo (que percorre todo o evangelho). Em Mateus, Jesus é o Messias há muito anunciado, que cumpre as Escrituras. É preciso conhecer as Escrituras para reconhecê-lo. Está às claras que, para Mateus, Jesus está na linha do messianismo profético, tanto de alguns profetas pré-exílicos quanto de outros pós-exílicos: ele é o Emanuel (Is 7,14); ele é o príncipe da paz (Is 9,6), ele será portador da justiça e da paz (Mq 4-5), ele será a própria paz (Mq 5,5). Ele é da estirpe de Davi, mas nem por isso igual a ele, mas um rei fiel e justo, um renovo que reinará em retidão (Jr 23, 5); ele será um rei-pastor. Esse messianismo aparece também na profecia de Zacarias (9,9-10): “exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, Filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco de guerra será eliminado. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar e do rio às extremidades da terra”.

Ao citar Zacarias, Mateus omite, entretanto, as expressões justo e vitorioso. No lugar desses adjetivos apresenta outro: desarmado. Jesus é, então, o Messias da paz, que elimina o aparato de guerra. Ele é pacífico e vem desarmado. Esse é o messias esperado! O Evangelista quer provar a todo custo que a entrada de Jesus em Jerusalém, apesar de ser uma entrada real (afinal, o jumentinho é uma cavalgadura real, mas de reis pacíficos), não é uma entrada triunfalista.

A multidão, então, exclama, dirigindo-se diretamente ao Messias: Glória (ou Hosana) ao Filho de Davi! Muito provavelmente, ela está enganada quanto ao messianismo de Jesus, porque não está esperando a cruz em seu caminho, como também os discípulos não a esperavam nem a desejavam (Mt 16,22-23). O brado Hosana, em hebraico, tem um primeiro sentido que é o de apelo por socorro, por salvação: “salva, por favor!”. É muito provável que o povo estivesse esperando, de Jesus, a tomada do poder.

A multidão reconhece em Jesus um profeta e o evangelista sabe que ele receberá o mesmo destino dos profetas. Além disso, a multidão diz que ele é de Nazaré (mesmo com o evangelho narrando o nascimento de Jesus em Belém –Mt 2,6). Um nazareno, um galileu, não são adjetivos que indicam apenas uma localidade, mas mostram uma expectativa: de que Jesus fosse um revolucionário, um rebelde (nos escritos rabínicos, afinal, galileu é sempre sinônimo de execrável, de gentalha sem lei). Entre os galileus estão os mais radicais zelotas e Nazaré é, historicamente, conhecida como um dos seus covis. A multidão, em Mateus, não é conhecedora de Jesus; ela se engana. É preciso se aproximar mais de Jesus para conhecê-lo; ser da multidão não é suficiente. Mesmo assim ela brada ao Messias, esperando um rebelde, vindo da Galileia, que a salve. A revolução de Jesus é bem outra.

Já a cidade de Jerusalém se agita e desconhece quem é Jesus, perguntando: quem é este? A cidade santa não conhece Jesus e é incrédula. Quando vieram os magos atrás da estrela que viram no Oriente, Jerusalém já se mostrava incrédula (Mt 2,3); quando Jesus entra em Jerusalém, ela não sabe quem é ele. E pior: essa é a cidade que mata profetas e apedreja os enviados de Deus (Mt 23,37a). Já ficamos de sobreaviso, desde então: a entrada na “cidade santa” já nos mostra um horizonte de incompreensão sobre quem é Jesus, bem como um horizonte de rejeição. Mesmo assim, legitimado pelo Pai (Sl 118), Jesus realizará sua missão pacificamente.

Incredulidade e recusa

Ao entrar em Jerusalém, o evangelista mostrará um acerto de contas entre Jesus (e a Igreja) e o Judaísmo. Jesus reforma a vida cultual do povo, expulsando os comerciantes do templo e reivindicando esse lugar como casa de oração (Mt 21,12-17). Jesus é como o rei-bom Ezequias, que se preocupa com o culto e tem zelo pela casa do Pai. Os chefes do povo se tornam hostis (21,15). Quase todos os responsáveis mais qualificados do judaísmo vêm ter com Jesus: os altos funcionários do templo (21,15), os mestres da lei (21,15), os notáveis do povo (21, 23), os fariseus (21, 45), os herodianos (22, 16), os saduceus (22,23) e todos mostram sua incredulidade e resistência. Já o povo, cada vez mais, se entusiasma com os ensinamentos de Jesus (22,33). Nas controvérsias com os altos escalões de Jerusalém, Jesus sai sempre vitorioso e, mesmo quando os chefes são comparados ao filho desobediente do Pai (21, 28-32), aos vinhateiros homicidas (21, 33-46), aos convidados que recusam a festa de núpcias e, por isso, são excluídos (22, 1-14), ou à figueira estéril (21, 18-22), mesmo aí, eles permanecem na incredulidade e não são demovidos de seu lugar de recusa obstinada. Diante dessa constante resistência, sobra a Jesus o lamento profético e a condenação que a própria cidade santa armou para si: ela mata os profetas e, desse modo, rejeita ao próprio Deus. Por isso, sua casa será abandonada. No lugar dos que recusam a Jesus, entrará aquela que o aceita: a Igreja, ou seja; a comunidade dos discípulos.

A morte de Jesus

A morte de Jesus é consequência de uma vida marcada pela opção radical pela justiça, como ajustamento perfeito à vontade do Pai. Em Mateus (26,14-27,66), esse texto tem algumas nuances bastante importantes, pois também pretende ser um relato edificante para a comunidade mateana (do ano 80d.C). E diante da perseguição que essa comunidade sofria, era importante lembrar como os discípulos reagiram à prisão de Jesus: “então, todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram” (Mt 26,56). Esse primeiro elemento, destacado do texto, mostra a grande tentação dos discípulos diante da cruz: abandonar Jesus. Os discípulos que deixaram tudo (barco, família, redes, coletoria de impostos), agora fogem. Duas coisas se tiram daí: os discípulos precisam ser corajosos, devem ser resistentes, mas são frágeis. E a comunidade é passível de medo e inconstância.

O julgamento de Jesus em Mateus é religioso (26,57-68), pois acontece diante do Sinédrio, mas é também político, pois acontece diante de Pilatos (27, 11-26). Os poderes judaico e romano não se suportavam, mas o evangelista quer mostrar que quando têm um inimigo em comum, até forças hostis se reúnem, mostrando bastante hipocrisia. Jesus é acusado de blasfemo pelos religiosos e, pelo poder romano, de agitador da multidão e de pretenso rei. O Evangelho de Mateus, contudo, ressalta mais a culpa do Sinédrio na condenação de Jesus (por causa das tensões da comunidade mateana com o judaísmo). Por isso, esse é o único Evangelho que mostra Pilatos lavando as mãos, isentando-se da culpa (Mt 27,24).

Mesmo na Páscoa, a cruz é decretada como pena máxima a Jesus. Os religiosos vão colocar a lei e a doutrina acima da vida, como justificativa para matar Jesus. Já Jesus se mostrará como o justo, até o fim, porque faz a vontade do Pai. Ele é o bem-aventurado por excelência: é perseguido, sobre ele inventam toda sorte de mentiras, mas ele se mantém pacífico, com fome e sede de se ajustar (=justiça) ao Pai.

Mesmo ao ser escarnecido e humilhado, tentado até o fim (pelos religiosos, sobretudo), Jesus permanecerá fiel. O grito “Eli, Eli, lamá sabachtáni?”, que quer dizer: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”, mostra sua angústia real, mas aqui em Mateus não é sinal de esmagamento desesperador. Tanto é verdade que, mesmo esse grito, serve aí como oração, pois se trata da citação do Salmo 21 e, nesse salmo, segue-se ao grito de abandono, a confiança jubilosa no triunfo final. O povo, todavia, acha que ele está chamando Elias. Esse dado do evangelho de Mateus pode ter dois sentidos: o primeiro é a crença popular de que Elias socorria os necessitados que clamassem por ele. Logo, faz parte do escárnio do povo, ver Jesus como um necessitado gritando por ajuda. O segundo é uma ironia do evangelho: Elias é considerado o precursor do Messias. O povo acha que Jesus está chamando Elias, mas ele está gritando ao Pai como o Messias que confia nele.

Na cruz, aparece finalmente quem Jesus é: “ele era mesmo o filho de Deus” (27,54). Enquanto Marcos revela a identidade de Jesus na cruz, Mateus mostra a identidade de Jesus, muitas vezes mal-entendida, incompreendida ou recusada, em todo o seu radical sentido. Essa proclamação vem dos oficiais e dos soldados, porque a identidade de Jesus pode ser acessada por todos.

O véu do templo se rasgar, dado presente nos três evangelhos sinóticos, mostra a acessibilidade da salvação; ela não é exclusiva de uma classe. Deus não pertence a poucos, mas seu amor é para todos. Já o terremoto é exclusividade do evangelho de Mateus. O terremoto indica o fim do antigo e a instauração do novo: daqui por diante, não é salvo quem frequenta o templo ou segue a lei, mas quem olha para a cruz de Cristo. A imagem do terremoto, arrancada da literatura apocalíptica, evoca que o antigo passou, é o novo que tem lugar com Jesus.

Importante notar também a presença das mulheres, que diferente dos discípulos varões, não fogem (Mt 27, 55-56), não negam a Jesus, como Pedro fez (26, 69-75) nem o traem como fez Judas (Mt 26,3-5). Elas são perseverantes até o fim e Mateus é o único que recorda alguns de seus nomes, dentre as quais, ele nomeia Maria Madalena. Jesus reconheceu a voz das mulheres de seu tempo e elas não se deixaram intimidar nem pelo medo, atuando como discípulas protagonistas até a cruz.

Também é exclusivo de Mateus o dado sobre José de Arimatéia, um membro do Sinédrio, principal órgão responsável pela condenação de Jesus. Ele se torna discípulo do Cristo (Mt 27,57), o que mostra que também nesse lugar de declarada resistência a Jesus há quem se tenha deixado tocar, atravessar e transformar por sua palavra. Ele é o responsável por dar sepultura digna a Jesus (Mt 27, 57-61), evitando que ele permanecesse na cruz e fosse devorado por alguma ave de rapina, como era comum. Esse sepulcro servirá de sinal (e distração) para os discípulos, quando estiverem diante do mistério da ressurreição.

Para rezar…

A acolhida de Jesus em Jerusalém, que repetimos nas celebrações do domingo de Ramos, nos une a uma multidão que clama por salvação, mas é convidada a estar mais próxima de Jesus, a fim de compreender que seu messianismo não passa pela força, pela violência nem pelo triunfo. Como discípulos, somos chamados a nos ajustarmos à vontade do Pai, como fez Jesus, o bem-aventurado por excelência. Para tanto, será preciso, não raras vezes, enfrentar a cruz da resistência e da rejeição, reservada aos enviados do Pai. Que o testemunho das discípulas que ficam fieis a Jesus, mesmo diante da cruz, nos ensine a resistência da perseverança.

 

 

 

 

 

 

 

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