Destaque Reflexões Dominicais

Reflexão Dominical: Solenidade de Nosso Senhor, Jesus Cristo, Rei do Universo

Existe o lado de todos?
Solenidade de Nosso Senhor, Jesus Cristo, Rei do Universo
Pe. Joéds Castro
Padre diocesano de Uberlândia

Caros irmãos e irmãs, com a belíssima liturgia do 34º Domingo do Tempo Comum encerramos o ano litúrgico cristão, este domingo recebe a nomenclatura de Solenidade de Cristo Senhor e Rei do Universo. Esta festividade foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de dezembro de 1925, com a Carta Encíclica “Quas Primas”. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico.

Em nosso tempo manifesta um paradoxo entre o rejeitar o conceito histórico, mas exigir a mesma dinâmica prática. Então a pessoa se manifesta contra a autoridade instituída, mas o faz com autoritarismo indevido, não há espaço para reinos, mas se exige guetos em grupos das mais variadas e criativas matizes e demandas. O desuso da expressão “Rei morto, Rei posto”, não despôs a luta violenta por ocupar cargos e lugares de poder decisório, como o repudiar espaços geográficos delimitados, não retirou a sanha da conquista e subjugação cultural ou a suposta correção histórica por outra imposição de nova moral neutra. Desta forma nos faz refletir que os termos técnicos e conceitos para indicar cargos, ações e desejos foram somente diluídos, até mesmo pré-conceituados, para que se pudessem em suas aplicações serem realizadas por aqueles que teoricamente os rejeitam ou criticam, mas os desejam impor ao seu sublime perfeccionismo. Por isso é preciso buscar tanto o conceito em sua raiz, como sua real aplicação para compreender a beleza, a necessidade e a realidade do Reinado do Senhor Jesus Cristo, pois nele não se convenciona do senso comum em que o Rei é uma pessoa que concentra um poder arbitrário, absolutamente volta à sua própria manutenção. Em Cristo o reinar está em três expressões interconectadas pelo bem da comunhão: 1- o que reina é si mesmo um bem disponível, 2- o que reina é um bem da ação divina e 3- o que reina é um bem em doação permanente aos que se dispõem a acolher seu reinado. Por isso ao longo do Evangelho neste ano vimos tantas explanações de Jesus em convite de participar ao “Reino”, este que não é um local de domínio, mas uma vida (viver e testar dia a dia) que se levará ao aceitar o “Reino/Plano de Deus” como escolha de fé. Lembremos Santo Agostinho, expressava o pensar-se em si para si mesmo, ser para Deus e ser para as outras pessoas.

O surpreendente texto do Evangelho de Mateus 25, 31-46, que o liturgista nos propôs há tanto tempo, dispõe de uma apresentação dinâmica do “Plano/Reino de Deus” em sua acolhida, execução e conclusão, esta dinâmica que revela as duas fases do Reino: uma atual escondida por ser vivida de forma humilde e confiante, a outra futura, em sua glória de esplendorosa realização. Por esse motivo Jesus se vale da beleza das parábolas, que nos atualizam na vastidão do amor de Deus, que dirige a história em sua justiça, impedindo que o mal inverta e se torne lucro ou prêmio.

A consciência cristã manifesta a certeza que a pessoa está em sua vida como dom e graça de Deus, por isso seu tempo presente está inserido na história maior que sua própria existência, o que motiva a acolher esse melhor proposto e a desenvolver-se também como pessoa melhor, motivo que anseia por essa vida plena ofertada por Cristo, colocando seu Evangelho como caminho de existir no tempo e espaço. O texto nos coloca diante desta comunhão belíssima e sendo Cristo o centro, não de condenação, mas como fora chamado por Simeão de “Keitai” – causa (Lc 2, 34), causa de salvação, extraordinário exemplo a toda pessoa humana, sempre se reconhecer no mundo como causa de melhora, tanto em si como para seus semelhantes, eis então como Cristo é esse ponto importantíssimo e decisivo no Plano de Deus. As imagens são bem expressivas (v.33), as ovelhas representando os que acolheram, na voz de Jesus Mestre, serem conduzidos no pastoreio de Deus à vida em plenitude; por outro lado, os cabritos como representação dos que por terem seus chifres (o chifre na linguagem bíblica é expressão de força), em opiniões duras e imaturas vivem a bater suas cabeças para impor a outros, para ocupar lugares como encostas de morros, colocando suas vidas mais em perigo do que o lucro de suas guerras. Boas imagens para nós, como cristãos, seguimos com boa racionalidade o Pastor ou vamos “batendo as cabeças” pela vida afora?

Vale notar que o modo deste juízo de eleição não se movimenta por agentes ou personagens exteriores, mas pela força da Palavra do Filho do Homem, porque seu Evangelho é sempre proposta, sendo por esta causa movente tanto entre as ovelhas que vão à direita e os cabritos à esquerda. Esses à direita o texto indica que foram pessoas que sempre aceitaram convite de Jesus pelo Reino, tanto que Jesus, não lhes impõe a salvação, mas com gentileza convida novamente: “Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo”! (v.34). Jesus os surpreende com seu testemunho acerca da realidade de suas vidas, tanto que assombrados lhe questionam “Quando foi que te vimos?” (vv.38-39), pois a Divindade não manifesta carência, mas sempre força e poder. Aqui é preciso como aqueles que arregalam seus olhos e mentes em surpresa, também nós necessitamos aguçar nossa inteligência para uma reta compreensão do que Mateus está nos transmitindo de Jesus. Eles sempre fizeram o bem como opção de suas vidas, tanto às pessoas necessitadas, como às pessoas não merecedoras, personificadas no prisioneiro, porque ao preso não era concedido o tratamento que temos em nossos dias, o Estado por cobrança de taxas públicas provê cuidados e até benefícios, mas o preso era aquele que “assumia” sua culpa e iria ficar na prisão, mas se não houvesse parentes ou alguém que lhe levasse comida, morreria de fome, portanto, não havia uma áurea em “atitude de misericórdia” religiosa nos atos que realizaram, os atos foram como que o mínimo de humanidade possível. Continuemos com sobrancelhas levantadas como eles, porque Jesus ao aceitar esses atos realizados aos necessitados e “não merecedores” como algo a si mesmo,expõe a atitude de quem livremente optou pelo Reino, na sua dimensão divina e humana, existindo o que é humano comum e possível de ser feito, com aquilo que necessita da força Divina.

Jesus revela que estes nada fizeram por uma suposta linha teológica de quem age devido à consciência de obrigação em fazer algo, porque naquela condição recorda diretamente à pessoa de Jesus (muito bem afirmado “nunca te vimos assim”), como que se não o fizesse estaria desprezando ou ofendendo diretamente a Deus. Ora, se a pessoa não vê elementos específicos de Jesus na outra pessoa, está dispensado de ser bom com esta? Ou ainda, faço o bem a esta pessoa por “caridade cristã”, como que testemunha-se que o outro não merece nada de bom a receber, mas pela não liberdade da vida cristã, que lhe obriga, então o que diz ser cristão lhe presta um serviço, mas com intenção clara para receber de Deus? Portanto, não viram Jesus no pobre para agir, mas porque podendo ajudar uma vida humana simplesmente, sem nenhuma trombeta presente ou pretensão futura, agiram, não fizeram algo para Jesus Divino, mas como Jesus a todos ajudou, desinteressadamente o fez. Jesus viu todos como pertencentes a Deus Pai, não há nada de lucrar por eles, mas alegrar-se com eles. Assim a vida cristã é esse agir com Cristo, não um fazer no lugar dele, como se Deus estivesse impedido e sim ação própria de quem tem a oportunidade e aproveita, porque esse agir por obrigação de certa “caridade cristã”, não eleva a pessoa do outro, mas a humilha, ‘não te faço o bem por você que desprezo, mas lhe faço algo por causa de Jesus que mais me interessa’.

Se aqueles que são salvos estão assombrados, agora nos voltemos ao terror daqueles outros que tudo fizeram, esperando recompensas, sejam dos outros em favores e ainda mais tudo fizeram para agradar, barganhar e obrigar a Deus. Sua incompreensão é estarrecedora: “Quando foi que não te servimos?” (v.44), ou seja, ‘tudo fizemos por ti, como se estivéssemos servindo a ti’. São amaldiçoados, não que Jesus lance no fim de suas existências uma maldição para receberem um castigo eterno, já que se aproveitaram dos “bens do mundo”, nada disso, devem se afastar de Jesus eternamente, justamente porque sempre se aproximaram das pessoas e da religião com um interesse pervertido, ou seja, até mesmo o bem que realizaram o fizeram com a chamada “segunda intenção” e não pela simplicidade de realizá-lo por ser possível de fazer. “Malditos” por sua vida levada em perversão de atitudes, então não procuraram viver como pessoas já abençoadas por Deus, mas sempre se viram sob a influência do diabo e de seus anjos. Admoestação grandiosa para a vida cristã, jamais pensar que o mal lhe tem mais influência que a graça e a amizade de Deus e nada fazer de bem por obrigação, sempre como opção da liberdade pessoal.

Reina Jesus, não solitariamente, mas Jesus Reina na beleza e grandeza do bem multiplicado, o bem é a extensão do Reino de Deus agora e eternamente. Jesus Reina sobre a fome, pois a vence com bondade, Reina sobre a sede, pois a suplanta com a saciedade, Reina sobre a nudez, pois reveste de bondade e beleza, Reina sobre a doença (Covid-19), pois a cura com sua proximidade amorosa, Reina sobre os desterrados, pois indica que sua pátria, não é estrada de fuga, mas lugar da realização e Jesus Reina até mesmo sobre os que cometeram crimes, pois nem a eles sua misericórdia é infértil. Viva Cristo, Rei, pois com Ele também vivem agora e eternamente os que acolheram o Reinado de Deus e não as misérias, pobrezas, doenças, dificuldades e exclusões como atitudes finais ou condicionadoras de suas esperanças.

“Tudo façais por amor”.

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!