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São José: a experiência filial e amistosa de um padre

Véspera da Solenidade Litúrgica de São José, esposo de Maria. Quis dedicar-lhe algumas linhas. Pus-me ao teclado, e nada. As intuições e as palavras apresentaram-se como aquela personalidade que os Evangelhos dele nos transmitiram: silenciosa.

sao jose

Não obstante às pouquíssimas linhas que os autores sagrados dispensam a seu respeito, ele continua por aqui, entre mim e meu teclado, discretamente. Mas confesso; após a ordenação presbiteral, eu passei a senti-lo mais próximo, como se se convidasse a permanecer comigo. Muito lentamente, fui me dando conta desta presença, antes sentida, é verdade, mas não tanto como agora.

José chegou assim como quem não quer nada. Chegou e ficou. Quem o trouxe? Quem o convidou a vir?

Tenho sérias suspeitas. Ando pensando que foi Jesus. E por que razão ele o teria feito? Por que agora, e por que a mim?

Tais perguntas, com respostas divagantes, não diminuem a minha admiração por esta figura de homem, de pai, de esposo, de santo e, agora, de amigo. Claro que ele, José, sempre esteve por aqui, em minha vida. Desde cedo, na tenra idade, aprendi a amá-lo sob os braços de minha mãe quando nos falava da sagrada família: Jesus, Maria e José. Ele, na tríade, vinha sempre por último. Teria menor importância? Era, tão somente, um coadjuvante? O que seria de José se não fosse Maria? O que seria de Maria e José se não fosse Jesus?

Certamente, José continuaria sendo o que sempre foi e o é ainda agora: “[…] José, seu esposo, que era homem justo, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente […]” (Mt 1, 19). Eis a frase célebre que evidencia sua atitude de homem honrado diante da gravidez de sua noiva, Maria, de quem ele, nomeadamente, não era o pai. Poderia ter cumprido a lei: denunciá-la e, com os demais homens de seu clã, apedrejá-la. Não o fez. Decidiu-se por suplantar a lei com o amor e a misericórdia. Iria despedi-la secretamente. Assumiria, assim, para si e perante todos os olhares alheios, a vergonha e a culpa por ter desonrado uma jovem a quem fora prometido, desprezando-a. Deus não permitiu tamanho mal. Interviu. Coube ao justo ser também dócil; obedientemente, ouviu a Deus e se pôs confiante em sua Palavra a fim de cumpri-la até o fim. Depois calou-se. Nenhuma outra palavra foi dita sobre ele, e tampouco por ele, a não ser esta: “ele se chamará, Jesus” (cf. Lc 2,21).

De fato, a presença de José em minha vida, após a ordenação presbiteral, tornou-se perceptivelmente forte. Sua presença perpassa minhas lembranças e permeia meus pensamentos. O carinho e a filiação a ele tornaram-se ainda mais eloquentes. Quando saio, chamo-o para ir comigo. Diante de uma dificuldade trivial até àquelas mais complexas, no campo do ministério ou nas minhas questões pessoais, olha lá meu coração pulsando em sua direção e lhe pedindo socorro: “valei-me, São José”. Impressionante: não há uma única petição que eu lhe faça que não lhe chegue às mãos. Ele tudo acolhe. Sua providência tem se tornado tão operante que, não poucas vezes, assusto-me.

O que José anda planejando? Por quais caminhos pretende me guiar e que coisas ele ousa apresentar-me? Ando desconfiado. Sou mineiro.

José não me chegou assim, despretensiosamente. Duvido. Aposto que me foi endereçado por Jesus. Seria cuidado do mestre pelo seu discípulo mais desprovido daquelas virtudes “joseânicas”, e, por isso mesmo, o menor dentre todos os seus discípulos atuais? Possivelmente. O bom mestre “não daria ponto sem nó”. Apresentar-me seu pai adotivo incute em mim uma filiação e um forte desejo de me parecer com o Filho, na observância aos mandamentos do Pai e na ternura para com os pais na terra. As qualidades de José, o justo, apresentam-se a mim como possibilidade e dons a serem desejados ardentemente. Em sua aparente insignificância, José me ensina que, ao me procurarem, as pessoas esperam na verdade encontrar-se com Deus. Isso lhes basta.

Não deveria também eu, conservar meu coração casto como fora casto o daquele homem, em sua fidelidade irrestrita a Deus e à sua família? Claro que sim. E como conseguirei?

Como criança que aprende por repetição e observação. Quis o bom Deus que eu, aproximando-me de José – ou seria o contrário? -, aprendesse dele a justa medida das coisas; de todas elas. A justeza da vida conformada à vontade do Pai, refletida pelo Filho e construída na alma graças à sutileza do Espírito.

Como José, também vou me dando conta do grande projeto de amor do qual fui convidado a fazer parte. E, embora ele seja infinitamente maior do que eu, sinto-me indispensável para sua realização. Afinal, o Reino de Deus seria menor se não houvesse nele a humildade e a pequenez de um “José qualquer” que, graças à sua docilidade de alma, soube perceber a moção de Deus e, obedientemente, deu-lhe vazão em seus projetos mais pessoais.

Também José, ao rever sua vida e sua história, poderia cantar, e certamente cantou, como Maria, sua esposa: “O Senhor fez em mim maravilhas, pois Santo é o Seu Nome” (Lc 2, 47). Não seria este o canto altaneiro de toda gente e de todo homem que se ajustou à vontade e ao querer de Deus?

São José, castíssimo esposo de Maria, virgem e mãe, rogai por nós.

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Por, Pe. Claudemar Silva

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