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Síntese do dia 25 da Atualização Teológica para o Clero

Hoje (25), no terceiro e penúltimo dia da Semana de Atualização Teológica para o Clero da Província Eclesiástica de Uberaba-MG, dom Benedito Beni, bispo de Lorena-SP e conferencista convidado, tratou de três grandes temas do Concílio Vaticano II (192-1965), a saber, o capítulo VIII da Lumen Gentium que aborda a presença de Maria na Igreja, como partícipe do Povo Santo de Deus e primeira bem-aventurada, a Constituição Sacrosanctum Concilum sobre o tema da Liturgia e o Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o múnus presbiteral.

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Na parte da manhã, houve duas conferências. Uma, às 08h30 sobre Mariologia e a outra às 10h30 sobre a Sacrosanctum Concilium.

A respeito de Maria, dom Beni enfatizou que no capítulo oitavo da Lumen Gentium (Luz dos Povos), a devoção a Nossa Senhora é apresentada como pertencente à identidade do povo cristão, sobretudo para o presbítero. E que é, olhando para Maria, mulher de fé e obediente a Deus, que o cristão se vê capaz de viver uma vida de acordo com o projeto do Pai, na força do Espírito Santo. Assim, o Concílio Vaticano II afirma que a Igreja de Jesus Cristo que subsiste na Igreja Católica tem como elemento de eclesialidade a devoção a Nossa Senhora. De fato, Maria  é apresentada como a medianeira de todas as Graças, pois Deus quis, em sua sabedoria, servi-se de Nossa Senhora.

Quanto à Sacrosanctum Concilium e a Presbyterorum Ordinis, o conferencista apresentou, por assim dizer, os bastidores do Concílio Vaticano II (CVII).

O CVII, sendo o 21º Concílio da História da Igreja, foi um Concílio eminentemente eclesiológico. “Paulo VI sentiu necessidade, logo no início, de definir metas precisas e concretas, dando ao Concílio, portanto, uma finalidade eclesiológica. Desse modo, a compreensão da Igreja, a sua autodefinicação da Igreja perpassa pela renovação da Igreja e de sua presença no mundo”, sublinhou o conferencista.

Ainda segundo dom Beni, a pergunta que norteou todo o Concílio, logo após a segunda sessão, já sob o papado de Paulo VI, foi esta: “Igreja de Deus o que dizes de ti mesma?”. Diante dessa grande questão, a Igreja deveria dar a si e ao mundo uma resposta condizente e satisfatória. Por isso, coube ao Concílio elaborar um minucioso e ousado projeto eclesiológico:

1 – A eclesiologia de comunhão; 2 – O ser relacional da Igreja; 3 – Igreja, sacramento universal de salvação; 4 – Igreja, Povo missionário

“Eclesiologia de comunhão, pois antes, predominava uma eclesiologia de hierarquia, não que esta fosse errada, mas era, sem dúvida, incompleta. Esta visão foi completada pela eclesiologia de comunhão em que a hierarquia tem sua importância, mas a compreensão da Igreja não se reduz à hierarquia. A comunhão eclesial tem sua origem na Pericorese (compenetração) Trinitária para expressar a comunhão das três pessoas. O centro da Comunhão da Igreja é a Eucaristia: a Igreja é reunida para celebrar a Eucaristia. Todas as vezes que a Igreja celebra a Eucaristia ela expressa e exprime a sua comunhão. Comer e bebe são atos de comunhão. O carisma da Comunhão é a caridade, pois coloca as pessoas em relação uma com as outras. O ser relacional da Igreja; não fechada em si mesma, mas sempre em relação, com o mundo (presente no mundo), em relação essencial com todas as outras igrejas e comunidades cristãs; missão (não geral) de encarnar a Fé na cultura (a enculturação do Evangelho). A Igreja é, em Cristo, Sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima comunhão com Deus e de unidade do Gênero humano. Quanto mais a Igreja é uma, mais ela colabora para a unidade do Gênero humano”, argumento dom Benedito Beni

No fim da manhã, quando os participantes da Atualização Teológica se reuniram em grupos para estudarem as homilias de João XXIII e de Paulo VI na abertura do Concílio em suas respectivas sessões, dom Benedito Beni concedeu ao ELODAFÉ uma entrevista exclusiva, onde falou de sua percepção quanto aos membros do clero da Província Eclesiástica de Uberaba-MG e da nomeação de seu sucessor à frente da Diocese de Lorena-SP, Frei João Inácio Müller. Para ouvir na íntegra a entrevista, clique aqui.

À Tarde, às 14h15, dom Beni proferiu sua terceira e última conferência do dia: sobre a Constituição Pastoral Gaudium Et Spes.

Tendo participado desde o início das reuniões preparatórias para o Concílio e vislumbrando de perto os bastidores desse grande acontecimento no seio da Igreja Católica, dom Beni falou com a autoridade de quem não apenas acompanhou, mas contribuiu efetivamente para a realização do evento que transformou a Igreja por dentro e de como ela viria a vista de fora.

Neste sentido, a Gaudium Et Spes foi a carta da Igreja dirigida ao mundo. Ela teve cinco redações, o que deixa transparecer o quão foi difícil sua redação e aprovação. No início, segundo dom Beni, ela foi chamada de Esquema 13. Depois, por causa de sua própria trajetória ao longo do Concílio, foi sendo conhecida como “Agonia”, “luto”, e, finalmente, um belíssimo nome: Gaudium Et Spes (Alegria e Esperança).

“A Igreja sempre demonstrou uma sensibilidade muito grande para com o Ser Humano. Em nenhum outro documento foi tão intenso e profundo como neste. A Gaudium Et Spes está em continuidade com a Doutrina Social da Igreja e se fundamenta nas duas Encíclicas de João XXIII: Mater et Magistra e Pacem in terras [imporantes documentos do papa bonun, e que revolucionou o pensamento da e sobre a Igreja]”. Dom Benedito Beni

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A finalidade da GS era o diálogo da Igreja com o mundo moderno e, ao mesmo tempo, dar uma resposta às interrogações aos problemas humanos: morte, sofrimento, vida além da morte, mas também os problemas do homem enquanto vive em sociedade.

A metodologia da GS, por sua vez, era o método ver e julgar através do mistério de Cristo. Ajudar o Ser Humano a resolver os seus problemas e incentivar o progresso humano em todas as suas esferas; valorizar o trabalho, a tecnologia, entre outros fazeres humanos.

Algumas chaves de leitura dentro da GS: 1 – realidade; 2 – antropologia; 3 – consciência moral com relação ao trabalho e Matrimônio e família.

1.1: dois pressupostos: 1 – Sinais dos Tempos [Critério diretivo, aparecido pela primeira vez na Constituição Humanae Salutis de João XXIII por ocasião da convocação do Concílio]. Fundamento: Pneumatológico, ou seja, o Espírito Santo age na Igreja, mas também através dos acontecimentos da História Humana. É preciso, por isso, detectar tais eventos. “não só o povo de Deus, mas, sobretudo, os pastores, os bispos e os teólogos precisam ouvir as vozes do tempo por meio das Sagradas Escrituras e sob a luz do Espírito Santo”, afirmou o conferencista. Assim, lendo os Sinais dos Tempos, a Igreja terá como que um radar capaz de captar a presença do Reino de Deus no mundo.

2 – Diálogo: como entender esse diálogo? É a grande questão que ainda se apresenta nos dias de hoje. Para tanto, a chave de leitura, segundo dom Beni, é recorrermos à Encíclica Ecclesiam Suam do papa Paulo VI. Ali, Paulo VI afirma que o protótipo de tal diálogo da Igreja com o mundo é o diálogo de Deus com a humanidade através da Revelação. Esse diálogo de Deus com a humanidade é pedagógico, pois, “também a Igreja precisa levar em conta a evolução do individuo, dos tempos e dos povos. O diálogo é o meio, o método e nunca o fim”, afirmou dom Beni.

Na Alegria e Esperança da Igreja (GS) há alguns elementos há serem considerados; há nela certa visão dialética. A GS se refere, por exemplo, a grande organização do mundo de hoje que compreende, também, o secularismo [que não combate Deus, mas não o tematiza}, a Interdependência dos povos, o racismo, o grande progresso material, a miséria e a pobreza, além da chamada fome edêmica [aquela em que o indivíduo não consegue o mínimo para sua sobrevivência e que assola um terço da humanidade], a dominação ideológica, a manipulação psicológica e a realidade de um mundo cheio de conflitos.

Com relação à Antropologia, apresentada pela GS, o ser humano é visto como ser criado à imagem de Deus, portanto, capaz de conhecer e amar o Ser Divino, pois nele algo de divino o habita. Todavia, o pecado obscureceu a imagem de Deus que existe no ser humano. A Encarnação do Filho de Deus é vista pela GS como sugeriu o apóstolo Paulo, ou seja, Deus criou o mundo para que pudesse surgir o ser humano e criou o homem para que o Seu Filho pudesse se tornar homem: “o primeiro homem plasmado por Deus já reproduzia a imagem do Filho de Deus”, afirmo Beni, citando Santo Irineu.

Por meio da Encarnação, o Filho de Deus se uniu a cada ser humano, configurando assim a chamada Solidariedade Concreta, pois, Jesus pensou com inteligência humana, amou com coração humano, trabalhou com mãos humanas, inseriu-se numa determinada sociedade e dignificou as relações sociais.

“O mistério de Cristo, portanto, ilumina o mistério do sofrimento e da morte humanos. A nossa condição definitiva não é nem o sofrimento nem a morte, mas é participarmos da glória e da ressurreição de Cristo. Não podemos sofrer em vão; é preciso unirmo-nos ao sofrimento de Cristo. A sensibilidade da Igreja para com o ser humano não vem de fora, mas é uma consequência da Fé. A Igreja está presente no mundo a serviço de todos os seres humanos, independentemente de qualquer circunstancia”. Dom Benedito Beni

Quanto à consciência moral, o conferencista afirmou que, citando a GS, a consciência é o núcleo mais profundo do ser humano onde Deus habita, uma espécie de sacrário onde reside Deus. Ouvir a própria consciência é ouvir a voz de Deus. Através da consciência, o ser humano percebe a lei natural fundamental: o bem deve ser feito e o mal deve ser evitado. A consciência precisa ser formada, isto é, todas as vezes que a pessoa se isola, é quase uma mutilação da consciência. É preciso ser aberta. Ninguém pode ser impedido de realizar algo que esteja de acordo com a própria consciência. Aquele que sem culpa própria não conhece Jesus Cristo e a Igreja, se for pessoa de reta consciência, chega à Salvação.

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Dom Beni e Pe. Clério de Patos de Minas, participante da Semana de Atualização Teológica

E sobre o trabalho, dom Beni enfatizou que o “trabalho é a chave da questão social. O trabalho tem uma parte da pessoa”. Que o salário é a retribuição por uma atividade humana e que deve ser justa, suficiente para mantê-lo na sobrevivência. O ser humano se realiza também pelo trabalho; coloca o ser humano em relação com outro ser humano. Além disso, o trabalho produz tudo aquilo de que a sociedade tem necessidade. Sem trabalho, a sociedade perece. E que há uma Espiritualidade no [do] trabalho: “não é uma condenação, mas uma vocação para colaborar com Deus na obra da criação. O trabalhador é um co-criador”, como outrora afirmou o Paulo VI.

Por fim, falando acerca da visão da GS sobre o matrimônio e a família, dom Beni salientou que “no matrimônio o casal não se vive apenas para o outro, mas com o outro. A reciprocidade entre o homem e a mulher é a chave de compreensão para esta relação. Assim, na relação matrimonial, a vida encontra seu espaço propício, pois, tal relação é biologicamente aberta ao dom da vida. A procriação, como fruto natural do significado do sexo para com o outro, encontro o seu lugar. Com o nascimento do filho, o matrimônio se torna em família. Sem esta abertura e esta disponibilidade à vida, o sacramento não se consuma”, finalizou o religioso.

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