Diocese de Uberlândia Em Destaque

Tecelã – minha mãe

Tuas mãos habilidosas iam ensaiando aqueles fios que ligeiros se deixavam passar por entre os seus dedos. E, de tão justos e tão ágeis, nem sequer sentiam passá-los. Seguiam quase sonolentos pelo tear, mas iam juntinhos como se fossem notas de uma mesma canção. Nem bem chegavam, eis que ia cada um para o seu norte, dando-se em medidas precisas, mas não contados, pois os dedos que os tomavam sabiam, de antemão, que precisavam chegar e partir. E, assim, passavam-se os dias, varavam-se as noites sem alardearem pressa.

Desconhecias o instante opressor determinado, pois, senhora de si mesma, seguias livre. Cabendo-lhe, tão somente, o manejo de figuras vistosas, permeadas de sentido e de expressão, previamente escolhidas por ti. Esta beleza, ao menos, requer lentidão. O efeito sonoro não incomodava, ao contrário, atestava-me as veias quentes a pulsar pelas horas a fio. Era, de fato, ínfimo o espaço, mas, visto de baixo sempre me parecia tão amplo e tão vasto quando por ti ocupado, tornando-se santo por sua presença. Deitado ali, quase me esquecia de que era ultrapassado aquele seu oficio. Mas, ela, mais sábia do que eu, não dava trela a esta minha tolice aprendida no tempo. Também eu não sabia quando a contemplava fiar. Sei agora que cresci e desaprendi um punhado de coisas, ao mesmo tempo em que retomo o essencial.

A candura de me sentar aos pés de minha mãe e ouvi-la tecer preenchiam de luz e leveza os meus dias. Sim, eu tenho mãe tecelã. Quando ainda pequeno era ali, devotamente aos seus pés, que eu espreitava a vida e a deixava fitar-me por entre as vigas e as peças já quase vivas em suas mãos. Ali, tornava-se o lugar predileto para se brincar e crescer. Ouvir aquele silêncio interrompido pelo estardalhaço daquela geringonça, como rara preciosidade, enchia-me de orgulho: só em casa se podia vê-la. Entre um café e outro, uma pausa para o arremete, o acerto e a correção caso a linha tivesse se equivocado ou, quem sabe, os retalhos enroscados uns aos outros.

20150425_145251

Eu cresci deslumbrado com os feitios de suas peças feitas de sobras, de retalhos. Por que se aproveitava o que já fora lançado fora? Ela via mais do que entendia minha razão pueril. Foram lembranças que o tempo quis apagar, relegando-as ao inconsciente, mas que também ele, o tempo, se encarregou de reaver-me. Só agora me chegaram, muito lentamente, sobre os trilhos destes vagões que divisei.

Começo a ponderar que também a vida, especialmente a minha, – afinal, é a que vejo de mais perto -, tem inúmeros traços das infinitas cores e formatos apreendidos no tear da minha casa. A diversidade é que apaziguou e delineou o tom, a figura e o espaço reconfortador da peça, aquecedora dos tempos frios, impregnada do aroma de quem a fez. Imagino que as linhas da minha vida vão também como aqueles fios por entre os dedos daquela mesma senhora, que a vida convencionou-me a chamá-la de mãe.

No seu colo, minha alma fiou muitos sonhos, muitas crenças e consistentes valores. Aquietado ali, sob os cuidados de seus pés, no compasso oposto às mãos, perscrutei o ritmo da vida, do tempo que nos molda tal como as colchas que nos tornamos dos muitos retalhos postos em nós. Eu ainda não sei se releguei muito do que me chegou, ou se os sintetizei, mas poucos foram os retalhos vistos e deixados ao chão sem serventia. Porque há espaços em nós que exigem espessura certa. Ainda que o tempo corra tão loucamente, admirei-me de estar também eu me tornando tecelão. Quem sabe tomando um ou outro retalho que passe por mim, eu os ajunte e, tal como minha mãe, consiga tecer tantas vidas que já tiveram decretado o seu fim.

____________________

Por, Pe. Claudemar Silva

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!