Diocese de Uberlândia Em Destaque

Um olhar sobre a cidade

20 de Junho de 2013. Uma data para a comunidade uberlandense se orgulhar e guardar com carinho nos anais de sua História. Mais de 30 mil pessoas, segundo estimativas da polícia militar, estiveram presentes na passeata que teve início aproximadamente às 17h15. Os manifestantes se reuniram na Praça Clarimundo Carneiro de onde saíram com destino à prefeitura municipal. Durante todo o percurso, que passou pela Av. Afonso Pena e pela Av. João Naves de Ávila, ouvimos gritos de ordem e de convocação: “vem pra rua”, “sem vandalismo”, entre outros. Direitos, atenção aos pobres, melhorias nos serviços públicos de transporte, de educação, de saúde, o fim da corrupção, da violência, da impunidade e da injustiça foram alguns dos itens das reivindicações.

Já pela manhã, sentia-se um clima diferente no ar; Uberlândia havia acordado um pouco mais desperta. Desde o centro, até os bairros periféricos, percebia-se uma certa agitação. E, não obstante às muitas críticas, toda a mobilização se deu por meios das redes sociais. Como dizia um dos muitos cartazes: “a rede social saiu às ruas”. E saiu mesmo. Os adeptos das comunidades virtuais estavam em peso: homens e mulheres, jovens e idosos e, acredite, até crianças de colo, trajando “verde e amarelo” que, inclusive, davam-lhes um ar nostálgico de “caras pintadas” de tempos não vividos por elas. Algumas dessas crianças seguravam cartazes com dizeres reflexivos: “minha família me dá educação; o governo, não”, ou ainda, “é preciso lutar desde cedo; desistir nunca”; e outro ainda endossava: “quando a gente muda, o mundo muda com a gente”.

Estando ali, acompanhando-os bem de perto, o que pudemos enxergar foi que uma certa passividade política havia chegado ao fim. Havia um desejo sincero por mudanças estampado nos rostos que percorriam aquelas ruas. Mudanças, essas, que divisamos há tempos, mas que não chegam nunca. Quem de nós não deseja ver o fim da corrupção? Da superfaturação das obras públicas, o desvio escandaloso de tanto dinheiro, antes destinado ao bem e à participação de todos? Ou, então, quem de nós não gostaria de ter um refrigério maior ao fim do mês, quando, após o trabalho mensal, pudéssemos receber um salário que cobrisse nossas despesas e nos possibilitasse uma vida mais satisfatória? É difícil torcer por um país onde poucos ganham tanto e, tantos, são logrados dia e noite. É, no mínimo, masoquista se entusiasmar por um time que nos representa em um esporte tão aclamado, onde um só deles é capaz de ganhar em um mês o que um pai de família não ganhará em toda a sua vida. Como não nos indignarmos com os valores astronômicos destinados às construções ou reformas de estádios, enquanto as verbas destinadas à saúde e à educação – isso para ficarmos somente no básico – não conseguem garantir o mínimo necessário para a população, especialmente a mais carente? (uma senhora me contou: seu esposo faleceu por falta de UTI disponível nas unidades de saúde pública). Vergonhoso? Criminoso?

Nesta manifestação, algo nos impressionou: a maioria absoluta era jovem. E eles chegavam de todos os lados; em grupos ou sozinhos. Alguns, atrasados, eram aguardados ansiosamente por outros que os orientavam pelo celular; enquanto todos, empolgados, sentiam-se participantes de um momento histórico. Muitos deles vestiam camisetas dos seus cursos universitários; outros, embora sem terem atingido a maioridade civil, seguravam cartazes em que se podia ler, por exemplo, pedidos pelo “fim da corrupção”, “fim da impunidade”, ou súplicas como: “chega de violência”, “não ao preconceito”, e alertas: “saúde é prioridade”, entre outros. Nos gritos entusiasmados, quase coreografados, protestavam: “chega de roubar; professor vale mais do que Neymar”, além de cantos e hinos com teores patrióticos. Muitas pessoas, por razões diversas, preferiram a segurança de suas sacadas, enquanto acenavam ou fotogravam os passantes sob suas janelas.

Olhando para os jovens que faziam coro à nossa volta, era impossível não nos lembrarmos da campanha da fraternidade deste ano que tem como tema “fraternidade e a juventude”, e, como lema, “Eis-me aqui, envia-me”. A presença vibrante, o brilho intenso nos olhos e o vigor nos braços em riste, só mesmo a juventude é capaz de apresentar. A exigência por uma vida que valha a pena ser vivida, que eles reivindicam, não é distante do Evangelho, antes, o presume e dele procede. Quem disser o contrário entendeu pouco do Evangelho de Cristo. Enquanto nossas vozes não puderem ser ouvidas, nossos lamentos expressados e nossos direitos respeitados, ainda estaremos irrevogavelmente distante do Reinado que Ele nos veio apresentar e para o qual nos convocou desde já; desde agora.

Vendo aquela multidão em marcha, não pude deixar de me recordar de nossas procissões. Quantas delas, de fato, nos fazem almejar um mundo novo; onde todos, indistintamente, tenham seus direitos respeitados e garantidos? Saímos delas com aquela máxima no coração e na vida: “Ora e Trabalha”? O mundo novo a ser criado depende de nós. E depende mais: depende de mãos, pés e joelhos em ação.

Todavia, não faltaram os que se mantiveram de braços cruzados, indiferentes ou oponentes aos que se dispuseram a protestar. Ouvi, por exemplo, homens e mulheres contestarem a manifestação. Seus motivos não são injustificados. Diziam do medo do vandalismo, da violência mesma e dos aproveitadores e oportunistas de plantão. Nisso, todos têm razão. Mas, tais fatos, isolados, inviabilizam um projeto, uma aspiração altaneira e justa? Penso que não. Guardando a devida distância, senti-me na Ágora grega, onde os cidadãos, conscientes de sua participação política, tomavam a pólis e faziam dela sua casa comum, com exigências e leis orgânicas para todos. Em fatos assim, dá-se a descoberta do óbvio, mas sempre tão esquecido: somos seres políticos por natureza. Dessa condição, ninguém pode se esquivar.

Entretanto, numa democracia onde se elegem alguns para representar a maioria é preciso acompanhá-los e fiscalizá-los. Quando aqueles que foram postos para nos representar não são capazes de fazê-lo ou fazem-no com inúmeras ressalvas e com um grande prejuízo para a maioria, é, sim, oportuno que os demais cidadãos os recordem do papel que ousaram assumir; ou, se incapazes, que cedam o lugar a quem possa, de fato, torná-lo viável e credível. O mais é “pão e circo”. Disso, podemos nos abster.

Ao término de uma passeata, porém, quando todos se dispersam, cada um a seu modo e do seu jeito, e se dirigem para suas residências, pode ficar-nos a questão: foi uma bonita utopia? São entusiastas de um alvorecer inalcançável? Foi um tempo perdido? Eu poderia ruminar e tentar chegar a um parecer quem sabe mais profético; mas, sinceramente, não saberia chegar a melhor precisão. Faço meu aquele adágio salutar trazido sobre um papel cartolina, escrito de forma pouco profissional, mas carregada de sonhos e de verdade: “quando a gente muda, o mundo muda com a gente”. Assim seja.

Diácono Claudemar Pereira da Silva
Diretor do Centro de Comunicação Diocesano (CCD)

Foto: Jornal Correio

local: avenida joão naves de ávila com rondon pacheco
local: avenida joão naves de ávila com rondon pacheco

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